A mesa pode ser na cozinha, na copa ou na sala, mas há de ser a mesa da família, onde se come e se conversa. Assim é a mais bela das mesas, evolução da pedra da caverna onde nossos arqui-ancestrais repartiam a caça, e é continuação das muitas mesas que se antecederam nas famílias de nossos pais até eles se encontrarem para nos gerar, e, só então, conhecermos nossa mesa de infância.

A música Naquela Mesa, de Sérgio Bittencourt, faz desse símbolo familiar um recanto memorial, ao lembrar de seu pai Jacob do Bandolim, músico famoso que o filho antes orgulharia com outras belas canções. Mas só Naquela Mesa se eternizaria, cantada reverentemente em toda roda de samba de respeito.

Sua aparente simplicidade esconde um conhecimento formal da arte poética, pois Sérgio escreveu as estrofes em versos alternados de 10 e 12 sílabas: “Naquela mesa ele sentava sempre / e me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / que hoje na memória eu guardo e sei de cor”.

Jacob decerto teria amado tocar a música do filho, percebendo a letra bem lapidada e com fluentes rimas internas nos versos: “Naquela mesa ele juntava gente / e contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / que mais do que seu filho eu fiquei seu fã”. (E a letra ainda embute aliterações, repetições de vogais ou consoantes nas palavras, como em sentava/sempre, juntava/gente, contava/contente, fiquei/filho, animando o tecido fonético.)

A primeira parte trata das lembranças, a relação pai/filho, as histórias, os olhos brilhando, e a segunda parte trata da saudade a partir das coisas (a mesa, a casa, o jardim), com a dor aguilhoada por três rimas agudas em “im”: “Eu não sabia que doía tanto / uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / essa dor tão doída não doía assim / Agora resta uma mesa na sala / e hoje ninguém mais fala do seu bandolim”.

A melodia é emocionante, dispensando o uso de qualquer adjetivo na letra, deixando as coisas falarem por si. O sujeito não se diz dolorido, é o ambiente que dói, com a ausência do pai presente em tudo. E, por irônica magia, sabemos que sim, se não se fala mais no esquecido Jacob do Bandolim, seu nome é cantado sempre na música de seu filho.

E então, antes da quarta rima em “im”, o filho faz rima interna que nem parece rima, ele/dele: “Naquela mesa tá faltando ele / e a saudade dele tá doendo em mim”. Estes versos finais se repetem, agudizando o tom musical e a dolorosidade da letra, ainda sem qualquer adjetivo, simples e comovente como só, justamente por não evocar emoção, apenas dor, dando-lhe o nome dessa palavra que só existe na língua portuguesa, “saudade”. Sérgio era hemofílico e morreu aos 38 anos, ainda a tempo de ouvir sua música ser grande sucesso nas vozes de Eliseth Cardoso e Nelson Gonçalves, não sabendo porém que continuaria a ser muito regravada e sempre cantada. Pela intensa, densa, envolvente e comovente simplicidade, decerto continuará a ser uma joia não só artística como cultural, um atestado de validade dessas duas fontes humanas, a arte e a família. De Sérgio para Jacob e daí para nós para sempre, com amor.

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