Da boca pra fora
As palavras que sempre falamos e com que sempre nos enganamos
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de maio de 2026
As palavras que sempre falamos e com que sempre nos enganamos
Domingos Pellegrini 

O Chatossim é aquele que, quando alguém pergunta “tudo bem?”, responde sim ou não e passa a contar porque. Mas parou de fazer isso quando alguém trucou:
- Cara, como você é chato! Pára de responder se está bem ou não, senão vão te chamar de Chatossim!
Ele parou com aquilo mas o apelido ficou, é coisa que gruda pra sempre.
Mas realmente certas coisas que falamos intrigariam muito um marciano, por exemplo “aquele abraço”. No zap vá lá, mas ao vivo e do lado da pessoa, por que “aquele abraço” em vez de abraçar de fato?
Coisa semelhante é “a gente vai se falando”, que falamos quando sabemos que pouco ou nunca mais falaremos com a pessoa. Essas expressões são ditadas por uma hipocrisia tão corrente quanto inocente, e tem irmãs como “me liga” e “lembrei de você outro dia” (diante do que o Chatossim decerto perguntaria: “É mesmo? Lembrou de mim fazendo o que?”).
No fundo, não deve ser hipocrisia, apenas mania de ser (ou parecer) gentil. Afinal, somos povo propenso a fantasiar já desde o Hino Nacional, a proclamar que as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico, quando na verdade se sabe que apenas Dom Pedro teria gritado “Independência ou Morte” ali, depois de receber carta de sua mulher, a Princesa Leopoldina, contando que na realidade ela já tinha decretado a independência do Brasil cinco dias antes no Rio de Janeiro.
Mas para perceber essa falsidade histórica oficializada no Hino, e atinar com o machismo embutido a ignorar a coragem da princesa, seria preciso pesquisar, coisa que lembra estudar, que lembra outro clichê muito usado, “estudar com carinho”. Que significa o contrário do que diz, que um assunto ou problema estará sendo esquecido “com carinho”, ou seja, com desprezo (ou pior ainda se estiver “em cima da escrivaninha”, pois poderá já estar no lixo).
Há até aquele caso do sujeito que, cansado de esperar qualquer resolução sobre seu pedido, deu uma escova de móveis ao dono da escrivaninha: - Pra tirar o pó do meu requerimento...
“Estudar com carinho” é expressão irmã de “examinar com calma” e prima de “veremos o que é possível fazer”, a significar que nada será feito.
E há expressões corporativistas, de empresas e instituições diante de desastres funcionais, ou diante até de crimes como funcionários a até matar alguém por simples suspeita de furto: “Lamentamos profundamente e reafirmamos nossa crença nos valores de solidariedade” ou coisa que o valha, a significar que na prática o pessoal não foi educado para respeitar gente.
Mas campeã de hipocrisia é a frase “colaborando com as autoridades”, repetida por tantas pessoas físicas e jurídicas e até juízes flagradas em crime e/ou indiciadas em inquérito policial. A hipocrisia está já em que, nessa situação, nem podem deixar de colaborar, ou seria crime de obstrução da Justiça...
E, se o leitor chegou até aqui, mesmo achando a crônica muito longa, estará propiciando ao cronista outro clichê, o “sentimento do dever cumprido” (ou comprido). E aquele abraço!


