A expressão “dor de cotovelo” foi inventada pelo compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, especialista em sofrimento amoroso e que, além de assim enriquecer a Língua Brasileira, legou à MPB 50 músicas tão memoráveis que, como num show de rock sempre alguém grita “toca Raul”, numa roda de samba alguém sempre pede “toca Lupicínio”.

Lupi, como era chamado, começou a frequentar bares e compor músicas ainda rapazola, para desgosto do pai sargento do Exército, que conseguiu transferir o filho moço para serviço militar em Santa Maria, onde ele conheceu ainda moçoila Iná, que mudando para Porto Alegre seria sua primeira mulher. Mas também o segundo casamento, com Verenita, fracassaria porque ele era mesmo casado com a boemia, que, se fez fracassar seus casamentos, foi também a fonte sofredora de suas músicas.

Ele viveu sempre no quilombairro “dos Fidélix”, teve 20 irmãos e tocou talvez a mesma quantidade de bares (a expressão “dor de cotovelo” vem da postura do sofredor amoroso a beber com os cotovelos em mesa ou balcão de bar). Sua viagem mais longa para além de Porto Alegre foi para um mês no Rio de Janeiro, já compositor nacionalmente reconhecido. E compôs também o Hino do Grêmio, o famoso time gaúcho de futebol (“Até a pé nos iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos / com o Grêmio onde o Grêmio estiver”).

Foram porém as músicas “do cotovelo” que fizeram Lupi um nome nacional, como Vingança, que gravada em 1951 por Linda Batista foi um dos maiores sucessos da História da MPB: “Eu gostei tanto / tanto quando me contaram / que lhe encontraram / chorando e bebendo / na mesa de um bar... / E que quando os amigos do peito / por mim perguntaram / um soluço cortou sua voz / nem lhe deixou falar (...) / O remorso talvez seja a causa do seu desespero / você deve estar bem consciente do que praticou: / me fazer passar tanta vergonha com um companheiro /e a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou... / Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada / só vingança, vingança, vingança aos santos clamar: / você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”...

Cultura é como a vida, feita de prazeres e deveres, alegrias e tristezas, e assim o digamos setor sofrente da MPB tem em Lupi seu patrono inconteste, só ele capaz de versos tão dolorosos como em Nervos de Aço: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / ter loucura por uma mulher / e depois encontrar esse amor, meu senhor / nos braços de um tipo qualquer?” / Na estrofe seguinte: “num braço / que nem um pedaço do seu pode ser”.

E “há pessoas com nervos de aço / sem sangue nas veias e sem coração / Mas não sei se passando o que passo / talvez não lhes venha qualquer reação”... Enfim, “eu não sei se o que trago no peito / é ciúme, despeito, amizade ou horror / Eu só sinto que quando eu a vejo / me dá um desejo de morte e de dor”.

Esse desfecho já indicava o que seria a causa clínica da morte de Lupicínio: “insuficiência cardíaca”; ou seja, morreu do coração...

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