Como um pedreiro se transformou num gênio como compositor
Cartola compôs músicas preciosamente finas como 'As Rosas Não Falam' com as rimas com agulhas sonoras a lancetar a dor
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2025
Cartola compôs músicas preciosamente finas como 'As Rosas Não Falam' com as rimas com agulhas sonoras a lancetar a dor
Domingos Pellegrini 

No samba-canção de Cartola, as rosas falam sim, falam que é espantoso e gloriosamente humano que um sujeito chamado Angenor de Oliveira, apelidado de Cartola quando era pedreiro, sem estudar música e aprendendo a tocar violão com o pai, e tão apenas com o curso primário, compôs músicas tão preciosamente finas como As Rosas Não Falam.
A letra mesmo sem música vale como poesia: “Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim”.
Agudas rimas em “im/i” percorrerão a canção feito agulha sonora a lancetar a dor: “Volto ao jardim / com a certeza que devo chorar / pois bem sei que não queres voltar / para mim”.
A linguagem é simples e coloquial, como quem fala, as rimas ocorrendo como por acaso: “Queixo-me às rosas / que bobagem, as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti”. Ele compara a amada às rosas, ao dizer que ela elas roubam dela o perfume, com essa mágico exagero lembrando a cena da sacada entre Romeu e Julieta de Shakespeare.
Essa declaração de amor não correspondido entretanto não se encaminha para rancor ou mágoa, saudade ou desprezo, sentimentos comuns em tal situação. Cartola prefere uma mistura de sábia conformidade com ainda esperança, na única estrofe que é toda rimada: “Devias vir / para ver os meus olhos tristonhos / e quem sabe sonhavas meus sonhos / por fim”.
Revela assim que o sujeito se acha apiedável (“meus olhos tristonhos”) e entretanto se pretende conquistador ou controlador (“sonhavas meus sonhos”), sentimentos masculinos típicos na relação amorosa. A expressão “por fim”, que encerra esse discurso amoroso, tanto pode significar um aliviado “finalmente” como também um exasperado “até que enfim”, revelando a dubiedade sentimental do amante não correspondido.
A simplicidade formal e a dubiedade conceitual da poesia se casam com uma aguda e preciosa melodia, em nada típica do ambiente sambista em que ele viveu, até como um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira da Mangueira.
Compositor reconhecido tardiamente, Cartola foi um sublimador do sofrimento, como noutra de suas músicas que tocam muitos corações: “Ouça-me bem, amor / preste atenção, o mundo é um moinho / vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / vi reduzir as ilusões a pó”.
Reduzir as ilusões a pé é um clichê, mas isso só parece reforçar a autenticidade de Cartola sublimada pelas suas melodias. Assim uma letra tão impiedosa, como nesta música “O Mundo É Um Moinho”, é conduzida por uma melodia que parece composta por um pianista ou violinista: “Presta atenção, querida / de cada amor tu herdarás só o cinismo / quando notares, estás à beira do abismo / abismo que cavaste com teus pés”.
Assim, Cartola se fez compositor ímpar, com melodias e letras que enganam quem julgue ser a fina arte filha apenas de quem receba educação aprimorada. Os primores de Cartola não são catalogáveis nesta ou naquela condição social, são arte universal da mais alta qualidade. O pedreiro de chapéu côco (daí o apelido Cartola) construiu-se um compositor genial.


