A letra de Águas de Março, do bissexto letrista Tom Jobim, é exemplo de redução da linguagem ao mínimo, quase só com substantivos, sem adjetivos nem verbos (com exceção da repetição de “é” e “são”), numa sequência de versos curtos.

A melodia decompõe os versos em metades, reproduzindo o modo de trabalho do olhar, a juntar closes para conhecer um ambiente ou um estado de espírito: “É pau / é pedra / é o fim / do caminho / é um resto / de toco / é um pouco / sozinho / é um caco / de vidro / é a vida / é o sol / é a noite / é a morte / é um laço / é o anzol - numa visão multifacetada da vida rurbana, como cunhou Jaime Lerner, as chácaras e bairros suburbanos entre cidade e campo.

Mas então o tom sobe e os versos não saem mais subdivididos pela melodia mas inteiriços: “É peroba no campo / é o nó da madeira / Caingá candeia / É o Matita Pereira” (conforme Tio Google caingá pode ser uma planta ou um tipo de madeira; e Matita Pereira é figura folclórica amazônica e também rural).

A ambiência rurbana continua enquanto se alternam tom agudo e grave: “É madeira de vento / tombo na ribanceira / é um mistério profundo / é o queira ou não queira / é o vento ventando / é o fim da ladeira / é a viga, é o vão / festa da cumieira / É a chuva chovendo / é conversa ribeira / das águas de março / é o fim da canseira / é o pé, é o chão / é marcha estradeira / passarinho na mão / pedra de atiradeira”.

Continuam esses enfoques do painel rurbano: “É uma ave no céu / é uma ave no chão / é um regato, é uma fonte / é um pedaço de pão / é o fundo do poço / é o fim do caminho / no rosto um desgosto / é um pouco sozinho”.

Imiscuem-se alusões à vida pessoal: “É um estepe, é um prego / é uma conta, é um conto / é um pingo pingando / é uma conta, é um ponto / é um peixe, é um gesto / é uma prata brilhando / é a luz da manhã / é o tijolo chegando / é a lenha, é o dia / é o fim da picada / é a garrafa de cana / o estilhaço na estrada / é o projeto da casa / é o corpo na cama / é o carro enguiçado / é a lama, é a lama / é um passo, é uma ponte / é um sapo, é uma rã / é um resto de mato / na luz da manhã”...

Então esse ritmo picotado e o tom agudo da sequência de versos curtos são concluídos por versos longos e graves, sugerindo enchente: “São as águas de março fechando o verão / é a promessa de vida no teu coração”.

Continua com a melodia picotando e em seguida estendendo os versos: “É uma cobra, é um pau / é João, é José / é um espinho na mão / é um corte no pé / são as águas de março fechando o verão / é a promessa de vida no teu coração” (sugerindo que o sujeito está de mudança para o campo e nova vida). É uma longa canção, que retorna ao começo – é pau, é pedra – assim representando a continuidade da temporada de chuvas.

Essa inventiva e intensa composição de Tom é tida pela imprensa cultural a melhor da MPB, mas é estrutura simples em dois movimentos, o de versos curtos e animados e os dois versos longos e remansosos, a atestar que, conforme Leonardo Da Vinci, a maior sofisticação é a simplicidade.

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