As cantigas de roda são exemplos de comunicação eficiente com simplicidade, passando boca a boca pelas gerações como patrimônio cultural que se auto-preserva.

Quase sempre as cantigas têm como estrutura um truque expressivo, também chamado figura de linguagem. A cantiga Ciranda Cirandinha, decerto vinda de Portugal, começa com repetições da mesma palavra em três variações: ciranda, cirandinha e cirandar, como a brincar com a palavra: “Ciranda cirandinha / vamos todos cirandar”.

A brincadeira seguinte também é repetição acrescida com inversão: “Vamos dar a meia volta / volta e meia vamos dar”. Essas repetições e essa inversão tornam-se imitação do movimento rotatório da ciranda, quando as crianças rodam de mãos dadas.

A segunda quadra de versos também é repetitiva não nas palavras mas na semelhança das frases (o anel / o amor // tu me deste / tu me tinhas // se quebrou / se acabou): “O anel que tu me deste / era vidro e se quebrou // O amor que tu me tinhas / era pouco e se acabou”, assim reforçando o efeito rotatório ou cirandatório.

Mas a referência a anel como símbolo de compromisso amoroso indica o adulto na criação da cantiga infantil.

Em seguida, se a primeira quadra foi de convocação e a segunda de decepção, a terceira é de intimação, seguida, sabe-se lá porque, de despedida: “Por isso, dona (nome da criança) / faz favor de entrar na roda / Diga um verso bem bonito / diga adeus e vá embora”.

Se as três etapas se completam (convocação, decepção e intimação), a criança terá passado por uma situação que simboliza o processo vital de partilhamento, convivência e superação, embutido em palavras de simples entendimento.

A repetição também é o truque da ancestral quadrinha “Batatinha quando nasce / esparrama pelo chão // Criancinha quando dorme / põe a mão no coração”. Naquela cantiga, a repetição busca um efeito rotatório, aqui na quadrinha a repetição é para comparação entre a batatinha e a criança, passando pelo comum “chão” de uma e o “coração” da outra, a prenunciar tudo que se possa esperar desse órgão bombeador de sangue que virou símbolo de paixão.

Assim, pelos truques das cantigas se vê não só como são antigas mas, também, como foram feitas por adultos ou, como dizem as crianças, por gente-grande. Mas a cantiga Pau no Gato parece feita por um adulto criança, que narra o fato com duas rimas (gatô / berrô // morreu / deu) e repetições de sílabas, como a representar o pulo instantâneo do gato agredido: “Atirei um pau no gato-tô / mas o gato-tô / não morreu-reu-reu // Dona Chica-cá-cá/ (a)dmirou-se-sê / do berrô, do berrô que o gato deu / miau!”

Assim, parece cantiga a estimular agressividade contra animais, mas nas escolinhas é usada para, ao contrário, transmitir repulsa a isso, com algum esforço para com boas palavras diluir o fato de que o pau foi atirado para matar o gato, e, já que ele não morreu, dona Chica não repudia isso, apenas se admira... Entretanto essa cantiga eticamente incorreta se perpetua, decerto devido ao truque brincalhão da repetição das sílabas, já que criança não analisa, apenas gosta de brincar e, gostando, faz o que muitos adultos também fazem com suas crenças, adota.

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