Londrina, 2036. O visitante mineiro entra num bar do centro e leva um susto, parece estar de volta a Minas. O balcão e as mesas são de madeira, pisa-se em couros de boi e, nas paredes, há fotos de antepassados e cidades mineiras. O mineiro pede um café em tamborete no balcão também de madeira, bebe e vira a xícara para ver que também é de Minas.

Tudo é de Minas aqui no Bar Mineiro, diz o barista com sotaque mineiro e o mineiro nem acredita, até o pessoal é de Minas? Não, o barista brinca, nem o dono é mineiro mesmo, é neto de mineiros e nem tinha sotaque antes do sucesso do bar, daí deu de falar bem mineiradinho.

Uma parte do bar parece empório de coisas de Minas, desde doces e queijos até lembranças e miudezas, e ele examina tudo com vagarosa mineirice, até o dono se apresentar e perguntar se ele também é de Minas. O mineiro diz que é sim de lá e é como se não tivesse saído de lá, o bar ali é mineiro até no ar! Como teve ideia de um bar assim?

Não foi ideia sua, explica ao mineiro o neto de mineiro, o bar nasceu do programa Londrina Mundo. Conteceu o seguinte. A Companhia de Terras, no tempo ainda de cruzar os rios de balsa, anotou que os primeiros cinco mil pioneiros de Londrina vieram de trinta países do mundo e de todo o Brasil. Era gente buscando vida nova em terra boa, na maioria trabalhadores querendo comprar terra pra lavoura ou terrenos urbanos pra moradia e trabalho, e, se depois a cidadezinha chegou a metrópole foi devido à terra-vermelha e aquela gente trabalhadora e empreendedora.

No plano inglês, Londrina teria 20 mil moradores no campo e 10 mil na cidade, onde o centro seria uma cidade-jardim com comércio e serviços – e, quase século depois, viu-se que isso bem poderia ser revivido. O programa Londrina Mundo, conta o mineiro do bar, dá isenção de impostos municipais por dois anos, enquanto o empreendedor monta seu negócio com ambiente, produtos e serviços de qualquer dos Estados brasileiros ou das trinta nações dos pioneiros, mesmo que seja a Índia que deu a Londrina só um pioneiro, mas nem por isso deixa de haver uma perfumaria indiana.

Não precisa ter antepassado pioneiro, lembra o mineiro, basta ter projeto digno da bela placa na parede: “Londrina Mundo. Os pioneiros de Londrina vieram de todo o país e do mundo, e entre eles estavam mineiros. Aqui no Bar Mineiro tem Minas Gerais em Londrina”.

Um latoeiro vizinho, conta o do-bar, até mudou o nome para Latoaria Lituana, com belos quadros dos antepassados e da Lituânia nas paredes, tudo bem bonito, pois uma comissão da prefeitura acompanha e assessora as mudanças. Um antigo restaurante árabe, por exemplo, além da comida árabe de sempre, agora tem bandeira e cores do Líbano nas paredes e no uniforme do pessoal, decoração e música ambiente libanesas, além de um baita retrato do casal fundador.

Assim, conta o do-bar, o comércio e os serviços do centro se renovaram vestindo o passado, para mostrar que Londrina nasceu do mundo e pode bem receber o mundo. E eu, diz o mineiro, uai, eu vou dizer lá: ocês precisam conhecer Minas em Londrina!

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