Casas da vida são aquelas em que vivemos e que nos transformaram
Casa é ajuntamento de relíquias e novidades, lar dos nossos amigos fogão, pia, tanque, chuveiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 2026
Casa é ajuntamento de relíquias e novidades, lar dos nossos amigos fogão, pia, tanque, chuveiro
Domingos Pellegrini 

A foto é de lagoa no condomínio onde moramos, em casa com vista para um morro que todo ano se renova com plantios e colheitas, uma paisagem muito viva.
Mas, em São Paulo nos anos 80, morei em apartamentinho com janelas apenas para prédio ao lado, mas mesmo assim me recusei ser infeliz. Ali recebi Leminski e Itamar Assumpção, e dali saía para tantos shows e noitadas que hoje espanta lembrar, a juventude se permite excessos para a velhecência rir com complacência.
Dali logo mudei para a vilinha Cangatara, de sobradinhos emendados, de onde saía para fazer reportagens para a Playboy e outras revistas, entre as viagens voltando a ver shows no lendário teatrinho Lira Paulistana ou num dos tantos palcos da paulicéia, saudade boa.
Voltando a Londrina morei em edifício no Calçadão, conhecendo o inferno sonoro de então. Além de roda de capoeira aos sábados, havia todo dia vendedores ambulantes gritantes, barracas sindicais com altofalantes, além de pregadores evangélicos exultantes. Um deles se esgoelava ali todo dia com microfone e caixa de som, mas sumiu depois que lhe mostrei que era ouvido por ninguém. E, depois de uma católica procissão tão madrugadora quando barulhenta, protestei nesta Folha com cartas abertas ao bispado, aos pastores e à prefeitura, além de convocar protesto na Câmara que reuniu (contei) quatro dezenas de sofredores sonoros. Ganhei o apelido de Ouvidor do Barulho, mas guardo orgulho de ter começado a civilidade sonora no Calçadão, embora hoje ainda com lojas ostentando caixas de som nas portas.
Antes porém do Calçadão se civilizar, mudei para chácara, aí escrevendo as crônicas Notícias da Chácara que até viraram livro, quando a gente se renova a vida é farta de transformações. E fui mexer na terra, plantar, podar, cuidar, colher, comer a fruta apanhada no pé, ouvir tantos passarinhos no quintal quanto ver tantas estrelas no céu.
Aí lembrava da casa de vó Tiana em Assis, com seu quintal que a infância imensificava, cheio de plantas que ela plantava até chupando frutas e cuspindo as sementes em covas cavadas com faca da cozinha. Sua casa foi meu pedaço mais feliz do planeta (ah, que saudade do seu fogão a lenha com batatas doces no forno, pamonhas a ferver no caldeirão, balas de coco ainda quentinhas da panela).
Em Londrina a casa de nonna Paulina tinha um caquizeiro que floria nas férias de verão e dava os caquis antes das férias de inverno quando eu para lá voltava. Talvez para me vingar da natureza, cortei com faca a videira de nonno José, e por isso ganhei a única surra de meu pai, com cinto de couro, ele tomando cuidado pra não bater com a fivela, sempre um cavalheiro.
Mas casa de onde mais tenho lembranças é a de agora, vendo florido o jardim que foi só terreiro, como a varanda não tinha tantos vasos e as paredes não tinham quadros. Casa é ajuntamento de relíquias e novidades, lar dos nossos amigos fogão, pia, tanque, chuveiro, cama, as portas por onde caminhamos, o portão por onde chegam encomendas e amigos de carne e osso, antes que se transformem em lembranças. Xô, tristeza, sai, nostalgia: abramos as janelas para amanhã, a manhã!


