O casal conversa na cama olhando o teto quando ele fala baixinho:
- Você... se não quiser responder, não diga nada. Só quero fazer uma simples pergunta para resposta simples, sim ou não: você... você brincou de sexo com seus amiguinhos de infância?
Silêncio, até ela falar também baixinho: por que tal pergunta agora? Ora, lembra ele, a gente até agora falava de brincadeiras de infância, no meu caso o pique-salva, o bétis, empinar papagaio, soltar pião...
...jogar búrica, continua ela, coisa que você chama de bolinha de gude, como faz quem nunca jogou búrica.
- Você acha - ele eleva a voz - que eu nunca joguei bolinhas de gude?!
Bem - ela aponta - Ali na gaveta tem umas de lembrança, se quiser mostrar que sabe.

Imagem ilustrativa da imagem Brincando de sexo
| Foto: Shutterstock



O silêncio dele deixa o desafio pra lá, mas logo ele volta a lembrar: e a pergunta que te fiz? Ela fala com voz distante:
- Ah, porque fui contar a ele que na infância morei em sítio onde só tinha meninos, e com eles brinquei de rolar pelo barranco dentro de pneu de caminhão, e joguei cinco-marias com pedregulhos, e ficava com eles mascando cana e olhando nuvens, que era então nossa tevê colorida com a maior tela do mundo...

- Você não está desviando a conversa?
Ela suspira soltando ar em bico.
- Conversa ou interrogatório? Aliás, por causa de ciúme do que fiz ou não fiz há mais de meio século!
- Pois é - ele fala seco no silêncio escuro - Fez ou não fez?
Ela acende o abajur, dizendo que só o mesmo o abajur de sua falecida mãe, sua primeira compra "de cidade" depois que mudaram do sítio, só mesmo o abajur pra clarear certas conversas, e senta na cama para falar encarando:
- E se eu dissesse que transei com treze meninos, fazendo sexo oral e...
- Não quero detalhes!!! - ele senta arquejando - Eu só queria só um sim ou não e... Sexo oral e que mais?
Ela bate as mãos e solta aquela risada por quem ele se apaixonou há meio século, fala ainda meio rindo:
- E se eu te contasse que na verdade, mesmo, não sei com quantos transei porque perdi a conta...

Porque, ele fala gemente, está me contando isso? Ela piedosa e carinhosamente, lhe passando a mão no ombro, diz não estou contando nada, eu disse que "se" eu te contasse, portanto só supondo uma situação para ver tua reação que, realmente, meu homem, eu não esperava - já com a voz doce - sinceramente, meu bem, eu não esperava - lhe apertando o ombro - tanto ciúme ainda e tão forte, obrigada, meu amor!

Silêncio, até ela falar cantarolando: lembra do chá das meninas? Cada semana na casa de uma, pra trocar ideias e falar da vida.
Todas meninas acima dos sessenta, diz ele, e sim, diz ela deitando em seu peito, então no último chá as meninas falaram de sexo, quem ainda faz, quem parou de fazer e porque.
- Vocês - ele sussurra - falaram disso?! E...
- E - ela fala com voz de encerrar assunto - não posso falar mais nada, conversa de mulheres.
O velho silêncio novamente, até ele falar que isso pode ser até inconstitucional. O que, ela pergunta, ele pensa, pensa até falar com voz de lei:
- "Não serão permitidas, por um dos consortes, revelações sobre a vida conjugal sexual e intimidades do casal, através de toda forma de comunicação, incluindo as redes sociais, bem como conversas com amigas, vizinhas ou colegas."
Ela aplaude:
- Lindo, meu amor, só bote no masculino também, "amigos e vizinhos", pois a Constituição manda as leis serem para todos, inclusive os homens.

Silêncio, até começarem a rir, riem muito sentados na cama como costumam fazer os netinhos, e se olham com olhos úmidos, e deitam de mãos dadas, até ele perguntar baixinho: e quanto a brincar daquilo, sim ou não?

LEIA MAIS
- CÉLIA MUSILLI - A internet das árvores

mockup