O menino saía para a escola quando deu com aquele homem sentado no meio-fio. Como era um homem alto e de capote, parecia uma pequena tenda ali, e da tenda saiu uma mão que acenou para ele. Da esquina ele olhou, o homem abraçava sua mãe e entrou em casa levando um alforje, aquela bolsa dupla de levar a cavalo. Quando voltou da escola, no almoço a mãe apresentou tio Juca, era irmão da sua avó que, conforme a mãe, tinha ido viver com os anjos. Então tio Juca contou que, aposentado, resolvera visitar todos os sobrinhos, três dias na casa de cada um. Porque só três dias, perguntou a mãe, e ele piscou respondendo que visita é como peixe, depois de três dias começa a feder, aí o menino começou a gostar dele.

Daí tio Juca foi para a pia lavar louça e a mãe não quis deixar, ele falou que então ela precisava de uma corda e três homens fortes, dois para segurar ele para o outro lhe amarrar, senão ia lavar a louça como fazia todo dia – e o menino passou a gostar mais dele. Lavando louça curvado de tão alto, contou que, se não conhecesse as três palavras mágicas, nem conseguiria viajar, ele que só conhecia cavalo e carroça lá no seu sitinho e, para chegar ali, tinha pegado trem, ônibus e até táxi.

Depois deitou na rede da varanda e parecia dormir mas falou de olhos fechados: que é que ele queria saber? As três palavras mágicas, falou o menino, e tio Juca falou que ia mostrar.

Na venda da esquina, pediu licença para entrar e o vendeiro falou claro, nem precisava pedir licença. Tio Juca comprou fósforos e depois soprou ao menino:

A primeira palavra é licença. Se a gente pede, mesmo quando não precisa, é sempre benvindo em todo lugar.

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. | Foto: Reprodução

Perguntou em que açougue a mãe dele era freguesa, e lá, depois de pedir licença, perguntou se por favor o açougueiro podia dizer que carne ela preferia. Ela sempre leva bife de alcatra, bisteca de porco ou frango, disse o açougueiro, então tio Juca pediu que, por favor, o açougueiro escolhesse qual estivesse melhor no dia.

O açougueiro passou tempo vistoriando as carnes, até se decidir por uma alcatra muito boa, disse, de primeira mesmo. Enquanto o açougueiro cortava os bifes, tio Juca soprou:

- Ele decerto estava guardando essa alcatra pra alguém, mas como eu pedi por favor...

O menino entendeu que por favor era a segunda palavra. O açougueiro entregou o pacote de carne, tio Juca pagou e perguntou: sua graça, por favor? João, disse o açougueiro, e tio Juca falou obrigado, João. Depois na rua explicou:

- A terceira palavra é obrigado, ainda mais mágica se a gente fala o nome da pessoa.

Mas porque são mágicas? – o menino perguntou e o velho agachou para falar olhando nos olhos:

São mágicas por abrem portas e corações.

Passando por outro açougue, o menino contou que ali a mãe não ia porque o açougueiro era bruto e besta, e tio Juca entrou pedindo licença, comprou um frango pedindo por favor, agradeceu dizendo o nome do açougueiro, que de repente ficou sorridente e até parecia outro. É assim mesmo, disse tio Juca, as três palavras conseguem até fazer gente mudar.

Então o menino passou a usar as três palavras mágicas, e cresceu, e um dia a mãe avisou com olhos vermelhos e telegrama na mão, tio Juca tinha morrido. Ele também começou a chorar e a mãe se espantou, não sabia que ele lembrava tanto daquele tio-avô. Ele pediu licença para ver e depois se por favor podia ficar com o telegrama, e ela falou que sim, claro, então ele abraçou dizendo obrigado, mãe, e, quando desabraçaram, ela olhou bem para ele e disse nossa, meu filho, você virou um homem, não?

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