Imagem ilustrativa da imagem As togas
| Foto: Shutterstock



Era uma vez um país tão corrupto, com tantas quadrilhas sendo julgadas, que os juízes se tornaram estrelas. Apareciam tanto na televisão que alguns passaram a ostentar penteados descuidosamente despenteados, revoltos como a expressar alguma genialidade ou reprimida revolta mas, no fundo, cada um querendo aparecer mais que os outros.
Todo dia nos telejornais todo o país via as frases mais contundentes ou mais enroladas dos juízes. Muita gente se perguntava em que língua eles falavam, de tão inintendíveis, até que numa entrevista um explicou:
- Falamos a língua das leis, que podem não ser bem entendidas mas são para proteção e bem estar de todos.
Entretanto, os juízes continuavam a prender alguns corruptos e a libertar outros, o povo querendo entender, mas outro deles explicou:
- Temos de obedecer aos ritos e aos trâmites, às instâncias e recursos, apelações e agravos, para que a Justiça siga seu curso.
A corrupção tinha gerado crise com muito desemprego e daí menos impostos, de modo que os chamados cofres públicos tinham se esvaziado, enquanto os hospitais enchiam de gente doente, as escolas sucateavam, as rodovias esburacavam, os portos emperravam e tudo parecia empobrecer, enquanto os funcionários públicos faziam greve querendo aumentos, até que os supremos juízes aumentaram os próprios salários, explicando:
- Estamos há dois anos sem aumento, é questão de Justiça, ou será apequenamento do maior dos tribunais!
Então por cascata foram aumentados os salários de todos os juízes e de todo o pessoal judiciário, com o que reagiram os funcionários legislativos e executivos, constitucionalissimamente alegando isonomia e todos passaram a ganhar mais. O povo trabalhador estrilou nas redes sociais mas o ministro do Planejamento explicou:
- É um direito de inserção, pois os aumentos inserem mais massa salarial no mercado, alavancando a prosperidade para todos. Assim, o custo dos poderes públicos não é despesa, é fonte de benefícios para a nação.
E então de repente, sem qualquer explicação, o povo trabalhador foi para as ruas, cercando os tribunais, marés de gente portando cartazes com perguntas como: É justo só juízes terem dois meses de férias? Por que juiz corrupto é "punido" com aposentadoria? Por que só juízes e políticos podem aumentar os próprios salários? Justiça lerda não é uma bela m...? Toga não é uma velha droga?
Um ator de novela falou que as togas eram símbolos de um velho regime de um mundo caduco, e as togas se tornaram, conforme as pesquisas, detentoras da maior taxa de rejeição de todos os tempos. O Mocotó, Movimento Contra as Togas, invadiu os tribunais, fez fogueiras de togas nas praças, cantaram o Hino Nacional mais alto que nunca mas, depois, voltaram roucos para suas casas e seus trabalhos, ganhando salários e pagando impostos em cada compra todo dia. As togas sobreviveram apenas em museus, mas os juízes discretissimamente voltaram a seus cargos, enquanto o Congresso Nacional debatia a Priju, lei contra os privilégios dos juízes.
A lei foi discutida nas comissões durante meses, recebeu emendas durante anos e, década depois, foi arquivada por prescrição caducisória, mas um senador de Roraima anunciou que apresentaria novo projeto de Priju antes do final da legislatura. Com o tempo, a expressão foi incorporada à Língua como expressão de delonga. Mais alguma obra não ficou pronta? Priju. As macas continuam nos corredores dos hospitais? Priju. E a nova geração também fala priju, sem nem saber o porque da palavra. E um juiz aventou:
- Porque não togas brancas, já como símbolos de renovação?
Reticências.

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