As redes sociais são o novo Coliseo com seus ídolos e massacres
Os gladiadores são os influencers e performers nas redes sociais, mais acessados e apreciados quanto mais eloquentes e performáticos
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de novembro de 2025
Os gladiadores são os influencers e performers nas redes sociais, mais acessados e apreciados quanto mais eloquentes e performáticos
Domingos Pellegrini 

A ideia é de Dalva Vidotte: que as redes sociais (ou anti-sociais) são o novo Coliseo.
Na Roma Antiga, o Coliseo foi construído para oferecer ao povo diversão, o jeito humano de se alhear das agruras da vida. Houve imperadores que, para comemorar isto ou aquilo, ofereciam ao povo semana de atrações no Coliseo, onde até 50 mil pessoas passavam o dia vendo diversas atrações, das quais as mais aguardadas eram as lutas entre gladiadores. Eles geralmente eram prisioneiros de guerra ou criminosos que, intensamente treinados, podiam ganhar a liberdade depois de vencer várias lutas, e os mais aplaudidos eram os gladiadores mais cruéis.
Hoje, diz Dalva, os gladiadores são os influencers e performers nas redes sociais, mais acessados e apreciados quanto mais eloquentes e performáticos, esquisitos ou engraçados, raivosos ou odientos. Mas, como escudos e armaduras não impediam os gladiadores de ser feridos, esses novos gladiadores não estão imunes a ser feridos ou mesmo se ferir com as próprias armas.
Imaginemos um influencer escritor que passe a comentar histórias e personagens de seus livros. Ele é filmado diante de estante de livros em ambiente doméstico - e, graças à inteligência de suas narrativas e comentários, consegue muitos milhares de seguidores. A filmagem foca meio corpo, e ele comete alguns excessos de expressão, porém ainda com dignidade pautada pelos próprios temas.
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Então, talvez por esgotamento dos temas que bem conhece, o influencer passa a comentar de tudo, buscando assuntos “quentes”, angariadores de público já pelo próprio teor polêmico dos fatos focados.
Então se posta em plano próximo da câmera, também já abusando de trejeitos e chiliques, enquanto também vai revelando sua visão ideológica, seja de direita ou de esquerda, assim esquecendo ou ignorando que os verdadeiros comunicadores não manifestam suas preferências pessoais e fazem mais perguntas do que discursos.
Entusiasmado com as próprias performances, e decerto sem se importar com as críticas negativas ou até as ignorando, o influencer vai deixando de lado qualquer prudência e se expondo em frenesis de exaltação ou indignação. Até que um dia, ao comentar com desumanidade um fato notório do noticiário, passa a conhecer o que Dalva chama de “linchamento digital”. Como os gladiadores que, depois de muito vencer, quando vencidos viam pedir sua morte o mesmo povo que antes os aplaudia. E ele passa então a perder muitos milhares de admiradores e a ganhar muitos milhares de detratores.
Mesmo sem sofrer tal imolação, a própria atividade como influencer já trouxe problemas de saúde mental para muitos, como divulgaram por exemplo Felipe Neto, Kéfera Buchmann, Gustavo Tubarão, Luva de Pedreiro e Whindersson Nunes.
É o caso de lembrar que comunicação enriquece a todos, culturalmente, quando é canal e não palanque ideológico ou balcão de negócios. O Coliseo entretanto foi tão bem construído que suas ruínas ainda trabalham por Roma, atraindo turismo. Tomara que das novas tecnologias de comunicação reste mais que escombros de reputações e ídolos em ruínas.




