AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma amizade
Amizades são tão inexplicáveis como casamentos, embora muitas vezes mais duradouras. Talvez sejam geradas por química cerebral ainda não revelada, e tomara nunca seja. Eu não gostaria de saber, por exemplo, porque exatamente Apolo Mário e eu nos tornamos amigos em 1968. Sei é que, como eu tinha dezoito anos então, nossa amizade tem cinquenta anos!
Era o primeiro ensaio para O Auto da Compadecida, na antiga Faculdade de Filosofia, e não gostei daquele carinha chegar atrasado, até porque ia fazer o papel principal. Também estranhei sua gravata com camisa de mangas curtas, e guevaristamente perguntei se gostava de gravata, falou que só usava por ser bancário, saía do banco direto para as aulas noturnas. Então porque não tirava a gravata? Ah ele deu de ombros - Ela taí só porque esqueço dela...
Depois tivemos meio século compartilhando palcos, viagens, churrasqueiras e crenças. Acreditamos na luta armada para derrubar a ditadura, depois desacreditamos de toda mudança feita à força, tanto que a ditadura não caiu, se retirou acossada pelas urnas. Para isso estivemos no MDB quando era o partido de resistência à ditadura, e dele saímos quando começou a se tornar o que é hoje.
Em 1972, chegando mochileiros a sua terrinha natal Laje do Muriaé, descemos do trem na cidade vizinha e, andando pela estradinha de terra, Apolo se perguntou: será que alguém lá ainda lembra de mim? Breca um caminhão levantando poeira, alguém grita da carroceria - Apoooolo! e um time inteiro de amigos de infância desce para o abraço.
Fazendo teatro popular em salões paroquiais e praças, nos apresentamos até no então Hospital dos Tuberculosos (hoje HU) e na Reserva Indígena do Apucaraninha, com carroceria como palco. Um ano depois, voltando lá para pescar, passando por estradinha em jipe sem capota, eis que um menino índio grita Zé Passarinho! o nome de seu personagem na peça.
Porque Apolo é ator tão expressivo que, tivesse ido para alguma capital, teria grande carreira. Preferiu ficar entre os amigos, por ser sujeito feito de amigos. Esquerdistas e direitistas têm em comum sua amizade, embora ele sempre deixe claras por palavras e ações suas crenças. Cremos nos valores ancestrais: honestidade, verdade, fraternidade, liberdade, diversidade, tudo que os partidos e políticos insistem em apregoar porém negar na prática.
Um dia, liguei convidando para sairmos vestidos de mulher no carnaval, então ele perguntou apenas local e hora para a gente se encontrar e: - Vou de batom ou não? Saímos assim vários anos, chegando a quarenta no Bloco do Pirulito, que foi raleando até ele continuar sozinho outros tantos anos. Perguntei porque, e ele: - É que não sou homem de desistir fácil...
Formado em História no começo dos anos 70, aos 60 anos resolveu fazer Psicologia, tornando-se o aluno então mais idoso da UEL. Perguntei porque, e ele: - Ah, deu saudade de novidades!
Vive ajudando gente, silenciosamente. É culto, embora também oculte isso. Tem o dom da fala, mas escuta bem mais do que fala. Vê a grandeza das pequenas coisas, um pezinho de limão a nascer ali, um ninho caído na tempestade, a persistência bonita das ervas ditas daninhas. Tudo é de Deus, diz - e é feliz?
- Feliz é quem se acha - responde o amigo Apolo Mário de Sousa Teodoro, o grande Apolinho.



