Apolo Mário de Sousa Theodoro
Apolo Mário de Sousa Theodoro | Foto: Arquivo pessoal



Uma amizade
Amizades são tão inexplicáveis como casamentos, embora muitas vezes mais duradouras. Talvez sejam geradas por química cerebral ainda não revelada, e tomara nunca seja. Eu não gostaria de saber, por exemplo, porque exatamente Apolo Mário e eu nos tornamos amigos em 1968. Sei é que, como eu tinha dezoito anos então, nossa amizade tem cinquenta anos!
Era o primeiro ensaio para O Auto da Compadecida, na antiga Faculdade de Filosofia, e não gostei daquele carinha chegar atrasado, até porque ia fazer o papel principal. Também estranhei sua gravata com camisa de mangas curtas, e guevaristamente perguntei se gostava de gravata, falou que só usava por ser bancário, saía do banco direto para as aulas noturnas. Então porque não tirava a gravata? Ah – ele deu de ombros - Ela taí só porque esqueço dela...
Depois tivemos meio século compartilhando palcos, viagens, churrasqueiras e crenças. Acreditamos na luta armada para derrubar a ditadura, depois desacreditamos de toda mudança feita à força, tanto que a ditadura não caiu, se retirou acossada pelas urnas. Para isso estivemos no MDB quando era o partido de resistência à ditadura, e dele saímos quando começou a se tornar o que é hoje.
Em 1972, chegando mochileiros a sua terrinha natal Laje do Muriaé, descemos do trem na cidade vizinha e, andando pela estradinha de terra, Apolo se perguntou: será que alguém lá ainda lembra de mim? Breca um caminhão levantando poeira, alguém grita da carroceria - Apoooolo! – e um time inteiro de amigos de infância desce para o abraço.
Fazendo teatro popular em salões paroquiais e praças, nos apresentamos até no então Hospital dos Tuberculosos (hoje HU) e na Reserva Indígena do Apucaraninha, com carroceria como palco. Um ano depois, voltando lá para pescar, passando por estradinha em jipe sem capota, eis que um menino índio grita – Zé Passarinho! – o nome de seu personagem na peça.
Porque Apolo é ator tão expressivo que, tivesse ido para alguma capital, teria grande carreira. Preferiu ficar entre os amigos, por ser sujeito feito de amigos. Esquerdistas e direitistas têm em comum sua amizade, embora ele sempre deixe claras – por palavras e ações – suas crenças. Cremos nos valores ancestrais: honestidade, verdade, fraternidade, liberdade, diversidade, tudo que os partidos e políticos insistem em apregoar porém negar na prática.
Um dia, liguei convidando para sairmos vestidos de mulher no carnaval, então ele perguntou apenas local e hora para a gente se encontrar e: - Vou de batom ou não? Saímos assim vários anos, chegando a quarenta no Bloco do Pirulito, que foi raleando até ele continuar sozinho outros tantos anos. Perguntei porque, e ele: - É que não sou homem de desistir fácil...
Formado em História no começo dos anos 70, aos 60 anos resolveu fazer Psicologia, tornando-se o aluno então mais idoso da UEL. Perguntei porque, e ele: - Ah, deu saudade de novidades!
Vive ajudando gente, silenciosamente. É culto, embora também oculte isso. Tem o dom da fala, mas escuta bem mais do que fala. Vê a grandeza das pequenas coisas, um pezinho de limão a nascer ali, um ninho caído na tempestade, a persistência bonita das ervas ditas daninhas. Tudo é de Deus, diz - e é feliz?
- Feliz é quem se acha - responde o amigo Apolo Mário de Sousa Teodoro, o grande Apolinho.

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