AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de dezembro de 2017

Pontualé
Ele nasceu pontualmente à meia-noite, o cartório até ficou em dúvida se registrava como nascido num dia ou noutro. Talvez já por isso destinado a pontualidade, ainda criancinha já sentava para almoçar ao meio-dia em ponto como um homenzinho.
Aos dez, passou a reclamar dos professores atrasados para as aulas. Rompeu o primeiro namoro porque ela chegou alguns minutos atrasada no terceiro encontro. No velório do pai, o coche funerário se atrasou, ele reclamou, disseram ah, falecido não se importa mais com o tempo, aí ele perdeu a cabeça, teve de ser sedado para passar a fúria.
Na universidade, esperava os professores na porta da sala, olho no relógio: - Atrasado de novo, mestre...
Na formatura, depois de meia hora de atraso para o começo da cerimônia, pegou o microfone:
- O país padece de produtividade, que começa com pontualidade, e nós, se queremos um país produtivo com bom mercado de trabalho, devemos ser pontuais! Ou devemos dar mau exemplo já desde a formatura? Portanto, protesto!
Ganhou aplausos e vaias. Depois de retirado da tribuna por seguranças, teve uma crise nervosa com diarreia e, sentado no sanitário, ouviu que tinha ganhado também um apelido:
- Essa onda de pontualidade ou é pretexto dele pra aparecer, ou é lelé mesmo.
- Pois é, é o Pontualé!
Tentou esquecer a pontualidade, mas dela era lembrado a cada evento, casamentos, formaturas, enterros, cerimônias onde voltou a protestar, batendo palmas e proclamando:
- Em respeito aos que chegaram pontualmente, pro-tes-to!
Alguns se espantavam mas logo todos riam, ah, era só o Pontualé de novo. Mas ele insistia:
- Este país só vai mesmo receber investimentos quando passar a respeitar contratos e compromissos, a partir dos horários! Perdendo pontualidade, perdemos respeito, reputação, negócios, além de promoção profissional, clientes, amigos e, claro, também perdemos tempo, ou seja, perdemos vida! Por isso, pro-tes-to!
Mereceu reportagens como tipo folclórico, até deixar de atender repórteres, também porque se atrasavam.
Quase casou aos quarenta anos, quase porque a noiva deu razão à mãe, uma vez na vida ele não ligaria para o atraso... Então ela chegou dez minutos atrasada no cartório, ele já tinha saído há cinco minutos, dizendo que, se já ia começar o casamento perdendo tempo, quanto mais iria perder durante a vida de casado!
Quando morreu, seu único amigo, um relojoeiro, pediu pontualidade na cremação mas:
- A cremação não tem hora nem mesmo dia marcado, senhor, porque é preciso esperar vários corpos para cremação conjunta.
Fazer o que, falou o amigo, entregando o caso ao acaso, e por acaso olhou o relógio: era meio-dia em ponto.

Grafitemos
O mural Etnias, de Eduardo Kobra, no chamado Porto Velho do Rio de Janeiro, é o maior do mundo, consagrando a grafitagem como intervenção urbana tão bonita quanto eficaz na inibição da pichação. No Cemitério São Pedro, em Londrina, grafites dão vida aos muros dos mortos. Em várias cidades, fachadas e portas de lojas só se livraram de pichação com grafitagem, que pode atrair público comercial ou mesmo se tornar ponto turístico.
Então grafitemos, verbo que se conjuga assim: o proprietário contata grafiteiro, sugere e aprova o rascunho, compra tintas, paga o serviço e, onde só havia muro ou parede, a cidade ganha um tipo de arte que embeleza e presta serviço. Grafite é amor pela cidade.



