Imagem ilustrativa da imagem AOS DOMINGOS PELLEGRINI
| Foto: Foto: Shuttertock



A formiga

O terrorista monta os explosivos cuidadosamente, triste seria explodirem já e perder a vida sozinho sem virar notícia. Então formiga passa diante de seu pé. Pode matar pisando com a velha bota que calçou para deixar as novas para o irmão menor, mas afinal é o último bichinho que verá antes de cumprir seu destino, então deixa que vá.

Mas ela não vai: volta, e fica naquele jeitinho das formigas esfregando as patinhas e olhando para ele, como a perguntar – e daí? E daí o que, ele retruca, quer morrer? Ela parece querer, porque apenas dá umas voltinhas e volta a encarar a ponta da bota. Ele bate o pé de leve, ela se afasta ligeirinha.

Menino, um dia se perguntou porque formigas são assim, e passou a ler sobre elas no celular de um tio. Existem há mais de 100 milhões de anos, muuuuito antes dos humanos, únicas a viver em todo o planeta menos nos polos. São tantas que sua população só caberia num número de 16 zeros, formilhões de formigas que, se fossem pesadas, pesariam mais que a Humanidade!

Rapazola, apaixonou-se pela vida das formigas, tão organizadas quanto trabalhadeiras. A rainha, a viver apenas para fornecer ovas, fonte de população, as soldadas a guarnecer o formigueiro, as babás a cuidar das larvas, as operárias sempre a buscar comida, com suas antenas a cheirar o mundo. Se uma encontra com outra, tocam antenas e, se uma assim percebe que a outra está faminta, regurgita a lhe dar a comida do próprio corpo.

A rainha não se perpetua no poder como os humanos: envelhecendo, pede para ser substituída. E os machos, que fecundarão a próxima rainha, morrerão logo em seguida, mas deixando o formigueiro com futuro. Formigas, ele aprendeu então, não vivem para si, mas umas para as outras e todas para o formigueiro.

A formiguinha volta com outra, e estacam diante dele: e daí? Ele nem namorada tem ainda, mas algumas moças já lhe sorriem. Fechando os olhos, revê seus sorrisos, seus olhares doces como também a perguntar: e daí?

Se explodir, ganhará a eternidade mas, aqui, não continuará no formigueiro humano através dos filhos. E as duas formigas ali: e daí? Daí ele fica tempão pensando, pensando, até ver que elas se foram para o formigueiro, para a vida. Então retira de si os explosivos, e avisa que ainda não está pronto, talvez nunca esteja. Porque, perguntam. Não sei, responde, sabendo, entretanto, que formigas não matam formigas.

Notícia da Chácara



Décadas floridas

A foto tem duas décadas, a filha Ana Luísa menina clicada pelo irmão Fábio Alcover adolescente. Parte da chácara era coberta por cosmos, uma espécie de margarida – e, pela ausência de tantas árvores plantadas depois, a foto nos revela como a chácara mudou. Nossa vida mudou, ganhando céu e nuvens, lua e estrelas, dormindo de janelão aberto, acordando com os passarinhos. Mas se me dizem que morar em chácara é uma delícia, sempre digo sim, mas dá trabalho. E o que na vida não dá trabalho? Desde antes do primeiro tapa na bunda, o coração já trabalha e daí os pulmões passam a trabalhar, consumindo energia e pedindo comida, todo dia, de preferência três vezes por dia, graças a Deus viver é trabalhar.

Imagem ilustrativa da imagem AOS DOMINGOS PELLEGRINI
| Foto: Foto: Fábio Alcover



Mas na chácara aprendi a trabalhar com mais gosto. O corpo refresca no macacão molhado de suor. A cabeça estrelece de noitinha, a manhã canta nas árvores. A terra me deixou mais rústico e entretanto também mais sensível, com olhos para as flores e olfato para as floradas. Completando vinte anos de chácara, agradeço florindo por dentro, sentindo o chão no coração, ouvindo a fruta já no trovão. Obrigado, Terra.

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