Imagem ilustrativa da imagem AOS DOMINGOS PELLEGRINI
| Foto: Reprodução



Novamente chuva

O menino amava a chuva, para nas enxurradas andar descalço, até cortar o pé em vidro, então ficando a desenhar em vidraça embaçada.
O menino se tornaria escritor e aquele desenho na vidraça continuaria vida afora, usado para autografar livros, um coração com sol nascendo como se entre dois morros. Sem saber, o menino desenhou os dois mundos da literatura, o mundo interno, dos pensamentos e emoções, o coração, e o mundo externo, representado pelo sol.
O escritor se tornaria conhecido com o conto O Encalhe dos Trezentos, sobre um daqueles grandes encalhes de antigamente causados por chuvaradas. Mas ainda via a chuva como apenas água que cai do céu...
Também chovia no dia em que o homem, já depois de ter sido comunista, descobriu Jesus. Entrou sozinho num apartamento alugado e, como chovia e não valia a pena sair para comer, botou arroz integral para cozinhar. A luz ainda não fora ligada, então pegou um livro para ler na área de serviço, e era a Bíblia, que viera, sabe Deus porque (e Deus sabe bem porque) na caixa das panelas.
Começou pelo Novo Testamento, e que descoberta! O homem, até há pouco comunista que achava a religião ópio do povo e cria na violência para mudar o mundo, viu-se levado por Jesus a conhecer o mundo dos que creem na mudança em si e a partir de si mesmos.
O primeiro livro a encantar o menino fora As Fábulas de Esopo, escravo analfabeto que teve suas histórias decoradas e escritas pelos ouvintes. E agora o homem se encantava com as parábolas de quem também nunca escreveu uma linha e, no entanto, teve sua vida narrada em quatro biografias ou evangelhos.
Quando escureceu, continuou lendo à luz de vela, e só parou ao sentir cheiro de arroz queimado. Décadas depois, chega naquele ponto em que já antevê a noite no poente, mas sabendo que, haja ou não mais estrada depois, caminhar com Jesus foi o melhor que uma chuva poderia trazer, independente do que as igrejas tenham feito ou façam com seu legado.
Aprendeu a agradecer pela vida, com suas alegrias e dores; pela chuva, que nos dá os rios e as plantas e assim a vida; e pela Eternidade, que jamais entenderemos embora vivamos usando, já que o presente é seu único pedaço disponível.
Então agradece a cada chuva, grato como minhoca novamente em terra úmida. E chova, chuva, graça de Deus.

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| Foto: Dalva Vidotte/ Divulgação



Notícia da Chácara

FLORE, BABOSA!


Pois é, babosa serve para tanta coisa que parece até abuso florir também, mas dá sim esse belo pendão floral, além de ser planta que desdenha das secas, não precisa ser regada e vive bem em qualquer solo.
Uso todo dia para pentear os cabelos, esfregando um pedaço; os cabelos ficam assentadinhos e, depois de secos, lisinhos, mas o melhor é que ficam também mais fortes e caem menos. Vendo amigos com suas calvícies ou cabelos ralos, penso que deve ser verdade essa propriedade da Aloe vera, nome científico da babosa.
Só agora, lendo na net que babosa acaba com a caspa, ao eliminar as células mortas do couro cabeludo, me dei conta de que decerto também me livrou disso.
Também pode ser usada para retirar maquiagem, combater rugas, cicatrizar feridas e tratar queimaduras, além de muitos outros usos, embora com restrições para crianças e grávidas.
Seus espinhos são dóceis, não picam, suas folhas são gordas e babosas, daí seu nome popular, e sua flor é anúncio de que vai rebrotar, assim não precisando ser replantada. Seu sumo, porém, é amargo como que, mas seria demais, né, depois de tanto, querer ainda que desse suco. Se exilado numa ilha pudesse levar só uma planta, seria a babosa.

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