AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de agosto de 2018

Passeio pelo vale. Na verdade, só por um pedacinho do imenso vale, com seu regaço e seu riacho, entre horizontes ainda crespos de matas ou aplainados por plantações. Levo caderneta para anotar:
Quanto vale
passear pelo vale
em paz?
De repente venta: árvores se descabelam, chovem folhas, range o bambuzal, farfalha a capoeira, passarinhos ao léu: fogem para o céu ou para os ninhos? Certo é que a grande vassoura não poupa ninguém e, olhando bem, dá um belo espetáculo.
Ninguém varre
mais bonito
que o vento
No alto da colina procuro nuvens. Há dois meses esperamos chuva, lamentando tantos dias azuis de sol castiguento. Mesmo quando se formaram grandes nuvens, logo se apequenaram e foram levadas pelo vento.
Nuvens farsantes
imensos gigantes
se fazem duendes
Menino, tive dias de solidão, quando a família mudava para nova cidade sem amigos. Então ia encontrar amigos nos livros Robinson Crusoé, Gulliver, a turma do Sítio do Picapau Amarelo e, quando me cansava de ler, olhava o céu. Aí matutava como era possível tanto movimento no lento balé das nuvens, que, sem parecer que mudam, mudam sem parar. Depois no colégio, quando professor explicou que nuvens são apenas vapor que sobe das águas da terra, e o maestro de seu balé é o vento, o céu para mim perdeu o mistério mas não a graça de pintura em movimento, feita por um pintor que não assina seus quadros.
Céu é tão só
luz vento e vapor
na paleta de Deus
A cachorra caminha muito mais que eu, pois vai e volta farejando aqui e ali, entrando em trilhas, reaparecendo com o rabo a acenar felicidade. Vislumbro cor na capoeira, vou ver, é limoeiro-rosa carregado, encho os bolsos.
Vida mais cheirosa
e saborosa
com limões-rosa
Volto a caminhar e... cadê as grandes nuvens de agorinha mesmo? Lembro da música de Gordurinha: Oh, Deus / perdoe este pobre coitado / que de joelhos rezou um bocado / pedindo pra chuva cair sem parar... E então Deus manda tanta chuva que o pobre cearense pede para o sol voltar, alusão à ilusão humana de pretender controlar o incontrolável.
Quem dera ser
nuvem que nada faz
além de se desfazer
Mas se ilusão a nada leva, desilusão a nada conduz. Então sigo para o poente, morte sangrenta do dia para o pessimista, para o otimista aceno colorido de amanhã.
Teu tesouro
estrelas de prata
poente de ouro
À noite em casa, a cachorra choraminga medrosa olhando coriscos no horizonte, já ouvindo os trovões que não ouvimos. Mas sabemos que chegarão aqui, trazendo a chuva, então, para comemorar, faço chá, pego a velha caneca e vou para a varanda.
Caneca de chá
saudando a chuva
depois da seca
Primeiro chega o vento, depois os trovões ribombam acima da casa assustando a cachorra mas, quando chega a chuva, ela já ressona. Obrigado, Deus, em nome da grama, das plantas do vale e do jardim, e também em nome dos passarinhos; em retribuição, floriremos e cantaremos e nos alegraremos para continuar em frente, rumo a novos poentes.



