AOS DOMINGOS PELLEGRINI
O gato da foto veio da mata aqui perto da nova chácara onde passamos a morar, e veio brigando com outro (ou outra, talvez fosse briga de casal), até a portaria do condomínio. Aí um escapuliu, esse aí foi aprisionado pelo pessoal e depois levado pela polícia ambiental. E eu, de curioso, fui pesquisar o bicho na net.
É chamado de jaguarundi e muitos outros nomes, até por viver em muitos lugares, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Como é bicho pequeno, não atrai caçadores e procria mesmo nas pequenas matas que nos restaram, e, como todo felino, é carnívoro, embora também coma ovos e até frutas. Sitiante vizinho diz que tem dúzia de cachorros e sempre alguns filhotes "em preparo", porque os gatos da mata, vindo comer ovos ou galinhas, chegam a matar cachorros do sítio. Pois, se o gato mourisco é bicho que não ataca bichos maiores, entretanto acuado não recua nem diante de boi ou cavalo, lutando com garra e agilidade temidas por índios e caçadores.
E o gato desencadeia lembranças de quem nasceu numa cidade que nasceu cercada de mata. Eu menininho acompanhei meninos que faziam lanças de cabo de vassoura, com prego amarrado na ponta com arame, para caçar lagartos no pátio duma serraria que não lembro onde era. Lembro que os lagartos tomavam sol sobre as toras, tão imóveis quanto ligeiros depois que os meninos lançavam suas lanças e eles simplesmente sumiam.
Depois me lembro de, viajando de jardineira, começo de noite, sentado ali num banco da frente perto do motorista, ele gritou "olha a onça", e no meio da estrada de terra, batida pelos faróis, com seus olhos brilhando lá estava ela olhando para o ônibus. E vapt, num salto sumiu na mata, decerto espantada pelo grande bicho de lata e olhos luminosos.

Vô João costumava caçar em matas aqui por perto. Um dia, voltou irritado, contando que tinha perdido um bando de macucos e uma capivara. Pois estava com a carabina repousando na forquilha fincada no chão, esperando capivara na ceva de milho, e apareceram os macucos, então pegou a espingarda do chão, para que o chumbo grosso da carabina não estragasse a carne dos macucos, e eles ouviram e fugiram. Daí apareceu uma capivara e ele foi trocar a espingarda pela carabina, ela ouviu e também fugiu. Bicho tem ouvido fino, disse o vô. Ainda bem, disse vó Tiana, para quem todo bicho era sagrado e, antes de destroncar galinha nas mãos, rezava uma Ave Maria pedindo perdão.
Mas o maior bicho que vi menino foi a cobra Catarina, pois tinha mais de dois metros e era de um camelô hospedado na pensão de meus pais. Com a Catarina ele abria roda de curiosos na rua, para então vender suas bugigangas. E, como colocava a cobra para tomar sol no pátio da pensão, fiquei amigo, passando a mão, vendo que ela gostava, fechando os olhinhos toda molenga. Um dia, o camelô se foi e eu chorei tanto pela Catarina que, de consolo, minha mãe comprou um gato. O gato gostou foi de minha irmã, mas eu logo esqueci da Catarina porque chegou o tempo dos piões. Gente é bicho danado.
Na rua Gago Coutinho há uma grande pata-de-vaca, que todo ano solta, quase no pé do tronco, um galhinho que flore como miniatura da grande árvore. Uma beleza, mas você há de perguntar: ué, se é na rua não é na chácara. É que na chácara aprendi a olhar as flores, de modo que, onde esteja florindo, é a chácara. E todo mundo pode levar uma chácara dentro de si, é só olhar as flores do mundo.






