Domingos Pellegrini Atualizado em 25/05/2018, 23:00
AOS DOMINGOS PELLEGRINI

Nunca fui campeão de nada, primeiro lugar em nenhuma escola. Em amarelecidas cadernetas escolares, vejo que tirava quase só notas médias e baixas, algumas altas só em Trabalhos Manuais e Matemática, uma habilidade e um conhecimento que hoje de pouco me servem profissionalmente.
Nos esportes, meu dia mais memorável foi quando, jogando basquete nos Jogos Universitários, recebi cotovelada na cabeça e minha lente de contato foi ao chão. Em 1968 lentes de contato era raras, mas felizmente o juiz tinha ouvido falar dos "olhinhos de vidro", como eram chamadas, e parou o jogo, mandando abrir espaço para eu procurar a lente. Engatinhando procurei pelo piso, o ginásio de esportes de repente em silêncio, as duas torcidas antes barulhentas unidas na mesma curiosidade.
Procurei, procurei e desisti, quando o juiz viu a lente grudada no suor de meu rosto. Peguei, enfiei na boca para esfregar entre a língua e o céu da boca, como faziam os usuários de lentes naquele tempo, e coloquei no olho. Ele apitou recomeçando a partida, um jogador gritou para alguém na arquibancada Lente de contato! e logo todos gritavam em coro: - Bicha, bicha, bicha! Assim, minha maior proeza esportiva foi unir duas torcidas.
Passaria a vida assim, sem medalhas nem troféus, quando mexendo em velhos papéis acho diploma de campeão de concurso de robustez infantil (onde, decerto por brincadeira, colei foto já adolescente). Fui campeão aos dois meses de idade! Ninguém queira diminuir meu feito, se a comissão organizadora era formada por "professores da Escola Normal de Londrina e Médicos Pediatras".
Então essa maravilha chamada memória lembra que um dia, remexendo nos mesmos velhos papéis com minha mãe, perguntei se o tal concurso não estimulava obesidade precoce, e ela se ofendeu:
- Você não era gordinho, era esperto, sapeca que só vendo, por isso foi o premiado! Tinha nenê com tanta dobra de gordura que um médico até falou pra outro que, desdobrando, dava dois nenês. Uns dormiam, outros choravam, mas você olhou cada médico que te examinou, parecendo já um homenzinho, mereceu ganhar!
E eis que a velha memória lembra também que fui campeão de cuspe à distância. No recreio do grupo escolar, nisso a meninada apostava bolinhas de gude e até dinheiro, notas amarfanhadas com que depois, na saída, a gente comprava bijus ou quebra-queixos. Eu tinha levado de casa um pé-de-moleque feito por Tia Ana, percebendo que deixava espessa e pesada a saliva, de modo que conseguia cuspir mais longe. Dei mais uma mordida no pé-de-moleque e entrei na disputa com minhas moedas e fui ganhando de um, de outro, até tocar o sino para as aulas.
No dia seguinte, sabia que todos quereriam revanche mas, antes, passei no sanitário e escondido mastiguei metade de pé-de-moleque, depois fui para o pátio ganhar mais dinheiro. Ganhei de vários, enchendo os bolsos de moedas e notas, até sentir que a saliva perdia a densidade. Disfarçando, tirei do bolso e botei na boca o resto do pé-de-moleque mas alguém viu: - Ele botou um troço na boca!
Pronto! Fui chamado de enganador e ladrão, derrubado e chutado e, como um bando de rapina, me esvaziaram os bolsos. Em casa, ainda levei bronca por chegar com os bolsos rasgados, explicando porém que era por inveja de eu ser campeão. Campeão do que, perguntou a irmã. Atletismo, respondi - Lançamento à distância! - sem perceber que, com isso, começava o que iria ser minha profissão, contador de histórias.

Acredite, é um cacto aí florindo na foto, como a anunciar que a vida é feita de contrastes. A planta mais espinhenta e rude dá a mais bonita e frágil flor que, entretanto, dura só o tempo de bater uma foto, no dia seguinte já cai. Enquanto isso, noutro contraste, marias-sem-vergonha florem o ano inteiro, com seus caules molengos sem qualquer proteção de espinhos, tão fáceis de arrancar quanto de rebrotar. Se a vida é o reino da diversidade, as flores são suas bandeiras.





