AOS DOMINGOS PELLEGRINI
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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Era uma vez um menino que os colegas chamavam de Desligadão porque não usava celular. Ele não ligou e o apelido não colou, mas voltemeia alguém perguntava porque ele não usava celular, e ele explicava:
- Já tive três, mas perdi esquecendo nalgum lugar.
- E não lembrou onde?
- Se lembrasse não tinha perdido, né?
Apelidaram de Esquecidão mas também não colou, então apenas riam e esqueciam dele no recreio do colégio, todos enfiados nos seus celulares. Ele queria brincar, correr, nem que fosse para jogar bola-queimada com as meninas, mas elas também estavam nos seus celulares. Se um terrorista chegasse armado, falou a uma delas, mataria todos e nem perceberiam. Então no recreio ele lia, tanto que ela perguntou porque.
- Não sei, talvez porque não tenho celular.
Apelidaram de Lelão, mistura de leitor com lelé, mas ele novamente não ligou, e a vida continuou até o dia em que um professor propôs um debate através dos celulares. Não tenho celular, ele falou e o professor disse que emprestaria o seu mas ele não quis, o professor insistiu:
- Saber usar o celular é educacionalmente importante não só socialmente como profissionalmente, então o senhor simplesmente terá de usar ou levará zero, entendeu?
Veremos legalmente, ele falou e, no dia seguinte, chegou com uma carta à direção, já enviada à imprensa por email: "O colégio que me obrigar a usar celular mas, conforme a Constituição, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer senão em virtude de lei, e até agora nenhuma lei obriga usar celular".
O caso virou notícia, gerou debates e ele até viajou para entrevista em programa nacional. Quando voltou, o professor evitava lhe olhar e os colegas olhavam cochichando de longe. Então ele arranjou um celular antigo, tipo tijolão, e pendurou no cinto. Aquela menina pediu o número, ele falou que não sabia, ela pegou o tijolão, viu que nem tinha bateria.
- Ah ele explicou é só para me comunicar com o passado.
Apelidaram de Passadão mas ele não ligou e, quando alguém chegava com conversa chata, ele botava o tijolão no ouvido. Usou o tijolão até o dia em que aquela menina, já mocinha, falou ih, não é chato viver no passado? Então vamos para o futuro, ele falou, pegando pela mão e, quando chegaram ao portão, todos já comentavam que, quem diria, ele estava namorando a mais bonita do colégio! Mas, concordaram todos, continuava sendo um babaca sem celular.
Depois ele passou no vestibular para um curso com duzentos candidatos por vaga, ela ouviu alguém perguntando numa roda como podia um babaca como ele vencer 199. Ora, ela sorriu:
- Decerto não deve ser porque ele não tem celular, né?
Quando ele terminou o curso, já tinha proposta de trabalho, onde só estranharam não usar celular. Mas isso era temporário, ele explicou aos chefes, logo que também passasse a chefe teria auxiliares com celular e pronto, eles lhe passariam as ligações realmente importantes.
Mas casou com aquele moça e, quando ela engravidou, concordou em ter celular para ela achar o marido na hora do parto. Ele entretanto esqueceu o celular nalgum lugar, então alguém falou que ligasse para o celular tocar e ser achado, mas ele tinha esquecido o número. Estava em viagem e só foi ver o filho três dias depois de nascido. Podia ter visto antes pelo celular, ela falou, mas ele disse que preferia ao vivo.
Desisto, ela falou, e ele falou ufa, é como tirar um peso. Tempo depois, ganhou um prêmio pela excelência de seu trabalho, e por isso foi entrevistado. A que atribuía seu sucesso?
Ele pensou, pensou e:
Não deve ser porque não tenho celular, né?



