Domingos Pellegrini Atualizado em 02/05/2018, 17:09
AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de abril de 2018

Era uma vez um louco que se vestia de mulher, num tempo em que só as mulheres podiam fazer isso.
Ele vivia pelas ruas cantando com seu vestido estraçalhado, fugindo de pauladas, de pedradas e de gente gritando sai daqui, louco, sai daqui, mas ele sempre gritava de volta:
- Eu não sou louco!
Então veio a enchente, mais cheia que nunca, subindo até a escadaria da igreja, onde muitas famílias se abrigavam. E cada família que chegava de canoa nos degraus, recebia ajuda do louco para descarregar malas e sacas e enfim até as crianças, quando viram que o louco a ninguém fazia mal.
À noite, quando a água parou de subir já no último degrau, o louco começou a cantar, primeiro cantigas de roda até as crianças adormecerem, depois canções que fizeram gente chorar que nem criança.
Até a água baixar, o louco ajudou tanto na cozinha e na limpeza, que ganhou um velho vestido, vestindo como se fosse novo, ajudando em tudo e a todos até a enchente se recolher ao rio; daí o louco continuou pelas ruas, comendo um pão de alguém aqui, uma fruta de quintal ali, sempre cantando feliz.
Então aconteceram as queimadas, pipocando nos campos e avançando para a cidade, enfumaçando o céu, cobrindo de cinza os telhados, gente tossindo com olhos vermelhos. Fagulhas voavam ao vento, atiçando incêndios nos quintais e casas - e o povo todo foi combater o fogo, homens batendo cobertores molhados, mulheres manejando mangueiras e regadores, enquanto o louco cantava para as crianças no salão paroquial.
E, quando incêndio começou num quintal vizinho, o louco foi bater fogo com o vestido molhado, mostrando pernas peludas que não eram mesmo de mulher e acabaram chamuscadas como ele da cabeça aos pés.
Quando os pais chegaram, o padre estava com a batina encharcada de suor, o louco com seu vestido molhado escorrendo cinza, mas as crianças riam e cantavam felizes como se também fossem loucas.
Daí o louco passou a ser chamado para comer uma pratada numa varanda aqui, pamonha ali, sanduíche lá, mais feliz que pardal em poça dágua, toda semana estreando algum velho vestido novo.
Aí chegou a peste, conforme o povo, na verdade só uma gripe mas tão forte que a pessoa enfebrecia, tossia, espirrava e cada espirro espalhava mais gripe. E faltou pão por falta de padeiro, carne por falta de açougueiro e assim por diante, a cidadezinha parando, mais gente deitada que em pé.
Mas o louco continuava cantando e dançando pelas ruas, agora com um lenço cobrindo a cara. Porque isso, perguntou alguém, e o louco respondeu alegremente: - Pra não pegar gripe, ué!
Riram do louco, até alguém fazer as contas numa rua onde ele passava: naquela casa, quase todos já tinham gripado, naquela outra também, só o louco andava por todas as ruas sem gripar. Então passaram a usar lenço na cara todos que ainda não tinham pegado a gripe, e assim continuaram até que a gripe se foi.
Por isso um vereador propôs e o prefeito aceitou homenagear o louco, com uma cerimônia onde lhe deram um vestido novo mesmo. O louco ouviu os discursos sorrindo, depois bocejando, enfim dormitando, até que alguém cutucou, o prefeito ia falar! E, quando o prefeito disse que nunca tantos deveram tanto a um louco, o louco levantou a mão e falou não:
Sempre falei que não sou louco, só gosto de me vestir de mulher e de dançar e cantar!



