AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de março de 2018

Na venda do Tonho na Estrada da Pamonha tem de tudo, mas o ciclista apeia só pra comprar água, despejando da garrafa no cantil. Aí Tonho aponta a torneira ali, é água de mina, então se tem cantil... O ciclista de capacete parece um ET perguntando:
- Mas se o senhor vende água porque oferece de graça?
Ah, diz Tonho, é costume. O ciclista tira o capacete, coça a cabeça suada: costume? É, confirma Tonho, desde o tempo do vô, que abriu a mina, o pai encanou, então continua dando água que nem eles deram a vida toda. O ciclista olha as prateleiras cheias de tudo, e no piso as sacas de arroz e feijão, ainda vende a granel? Sim-senhor, Tonho confirma, o povo diz que empacotado custa mais.
- Mas o senhor teria mais lucro.
Agora é Tonho quem coça a cabeça, pois é, mas tem de fazer o que o povo gosta, né. Entra menino, pede umas coisas, Tonho embrulha em jornal, o menino sai, Tonho anota num cadernão, o ciclista atento:
- O senhor não tem medo de fazer fiado? Muitos já quebraram por isso...
Ah, não, o povo paga sim, Tonho garante, só o seo Valdo e a dona Leta não pagam, velhinhos e doentinhos, coitados, se não fossem os filhos não tinham nem o que comer.
- Mas porque o senhor não cobra dos filhos?
Não, Tonho até estranha, como cobrar de quem já tá arrimando pai e mãe?
- E em compensação, um filho dele me traz fruta, e uma filha dela traz frango. No tempo do meu vô, tanta gente pagava com frango que ele até revendia, eita tempo bão!
- Mas o ciclista insiste seu avô decerto ficava sem capital para investir no negócio, sem falar no fluxo de caixa, imagino que tinha mês de não conseguir repor o estoque, não?
Tonho fica piscando até dizer ué, meu vô, quando ficava sem dinheiro, cobrava tudo que era fiado, o povo pagava, aí ele continuava como Deus queria. Mas Deus não entende de juros, rebate o ciclista já incisivo:
- O senhor tem ideia de quanto está perdendo com esses fiados?
Tonho ri, ah, se tivesse tempo de pensar nessas coisas... O ciclista olha em volta, só um sujeito bica uma pinguinha no balcão onde passeiam moscas.
- O senhor não tem tempo? Mas agora mesmo não tem movimento nenhum!
- Como não, meu pai do Céu? Não tô eu aqui atendendo o senhor?
Desculpe, diz o ciclista colocando o capacete, já a caminho da bicicleta lá fora, quando entra uma menina com papelzinho. Tonho faz caretas para ler, faz outro embrulho, a menina sai e o ciclista não resiste:
- Essa compra o senhor não vai nem marcar?
Ah, Tonho explica, era só uma comprinha e cochicha era pra dona Leta que tá finando, tadinha. O ciclista monta na bicicleta e se vai balançando a cabeça. Tonho, da porta da venda, coça a cabeça e diz para o cachorro:
- O moço só pensa em dinheiro, como é que pode?
O cachorro entreabre os olhos, boceja e torna a fechar, Tonho bate pano no balcão espantando os mosquitos. Eu queria, diz baixinho, era arranjar um jeito de me livrar desses bichinhos, isto sim, mas depois silencia para ouvir um passarinho que lá fora desanda a cantar. Aí vê que o moço esqueceu a carteira sobre o balcão, ela fica ali até ele voltar. Ele pega, agradece, deixa uma nota no balcão, Tonho diz que não pode aceitar não.
- Mas o senhor cuidou pra mim!
- Cuidei não, deixei aí, que aqui ninguém rouba nadinha.
O ciclista fica olhando a venda, o Tonho, até dizer que tem inveja. Do que, pergunta Tonho. De tudo, diz o ciclista voltando devagar para a bicicleta. Vai com Deus, grita Tonho da porta, e o cachorro abre os olhos, boceja e torna a fechar; nada de novo na venda do Tonho.



