Domingos Pellegrini Atualizado em 20/03/2018, 16:47
AOS DOMINGOS PELLEGRINI

Porque tantos dizem "sem sombra de dúvida"? É como se fosse certo para todos que dúvida tem sombra, mas porque terá sombra uma dúvida? Será porque, quando com dúvida, toda questão estará assim obscurecida como se sombreada? Ou será porque alguém um dia pensou na dúvida como um monumento a deixar sombra? Ou, talvez, como uma nuvem, que também sombreia?
Mas nuvem, sem dúvida, não parece imagem adequada para o caso, pois nuvens passam e dúvidas podem permanecer. Resolvi então nunca mais falar "sem sombra de dúvida" pois sem dúvida se torna expressão inexpressiva como todo clichê.
Então lembro dos clichês da velha Folha de Londrina, antes da impressão em off-set. As páginas eram montadas em chumbo derretido nas linotipos, formando linhas quentes e colunas que ainda estavam mornas quando a elas se adicionavam os clichês, que eram as fotos transformadas em placas metálicas sobre blocos de madeira. Alguns desses clichês, como as fotos de pessoas famosas, eram usados repetidas vezes, daí a palavra ser usada para as expressões que se repetem sem expressividade.
"Sociedade como um todo" é outro desses clichês de que fujo como gato foge de água. Um dia alguém falou a expressão numa entrevista, e pegou que nem gripe em navio lotado. Afinal, a sociedade só pode ser "como um todo", ou seria uma parte da sociedade, uma classe social por exemplo. A expressão pegou porque parece culta e técnica, sendo entretanto apenas vazia e redundante.
Mas há clichês interessantes porque tem história, como "botar a mão no fogo". Na Idade Média, quem era acusado de bruxaria tinha de segurar uma barra de ferro em brasa, com as mãos envoltas em estopa e cera. Se ficassem nas mãos marcas de queimadura, a pessoa era condenada à morte. Não boto a mão no fogo que algum inocente tenha se safado.
E há clichês que mudam como trocamos de roupa, por exemplo "sem risco de morte", que antes era "sem risco de vida". Toda a imprensa usou a primeira expressão durante décadas, até todos passarem a usar a segunda, sem perceber a zeugma implícita: "sem risco de (perder) a vida".
"Fazer o que", espero não cometer o "erro gritante" de encerrar esta crônica sem uma "chave de ouro", recorrendo a essa "fonte inesgotável" que é a Língua, "fazendo por merecer" "aplausos calorosos", talvez até "gerando polêmica" mas enfim "coroado de êxito". Espero que o "prezado leitor" saiba "inserir no contexto" de sua vida esta aversão por clichês que abundam tanto quanto a criatividade rareia "do Oiapoque ao Chuí". Se conseguir isto, para mim será uma "vitória esmagadora", sem dúvida nem sombras.
Notícia da Chácara

A foto é de uma das plantas dos jardins do Lago Igapó planejados por Burle Marx, coisa que poucos sabem. São todas plantas nativas e formam um dos locais mais aprazíveis de Londrina, embora tão pouco usado. Diante de nossas praças vazias sempre lembro Castro Alves ("a praça é do povo como o céu é do condor"... mas o povo ainda pouco usa suas praças).
A Praça Nishimonya, diante do aeroporto, foi inaugurada pelo prefeito Wilson Moreira em 1988 e passou década mais vazia que bolso de monge, até começar aos poucos a ser frequentada, e hoje ferve de gente no final da tarde, melhor exemplo de praça útil na cidade. Como diz meu neto Caetano: - Vamos pracear?





