Imagem ilustrativa da imagem AOS DOMINGOS PELLEGRINI
| Foto: Shutterstock



Gostando de goiaba


Conforme aumenta a idade, diminuem os sonhos. Se aos vinte anos a felicidade só se contentava com grandes conquistas, quase aos setenta se contenta com um dia sem qualquer dor, o canto de um passarinho, semáforos em onda verde... Ou o neto de repente começar a gostar de goiaba.
Estou cortando um pedacinho da goiaba para espetar no anzol, pacu gosta de goiaba, e de repente ele pede "um pedacinho, vô, só pra provar". Puxa, penso, quantas vezes já ofereci não só goiaba como outras frutas, mas ele teima em só comer banana e morango, sem nem ao menos provar outras frutas mas, como sua teimosia pode ser herdada da minha, sempre me conformei com sua desfrutice. E ele põe o pedaço de goiaba na boca com muito cuidado, digo para nada temer, goiaba não morde.
Ele estranha as sementes, muito duras, não quebram dente? Digo que, se goiaba quebrasse dente, eu teria sido um menino banguelo. Ele pede mais um pedaço, come já sem temor. Depois outro pedaço, mastigando com gosto. Daí fica olhando a vara imóvel, até falar que, pelo jeito, hoje os pacus não estão com fome...
- ...então posso comer o resto da goiaba?
Enquanto ele dá gulosas dentadas, pergunto se lembra de quando nem tomate comia por não querer nem provar.
- É mentira, vô, eu seeeeeempre gostei de tomate!
Pergunto se lembra do dia em que comeu o primeiro tomate, ele fica olhando a lagoa. Conto que foi depois de comer macarronada e, ao saber que o molho vermelho era feito de tomates, aceitou experimentar "um pedachinho bem pinininho", aí passando a comer tomates até na mão, mordendo como fruta.
- Como é que você lembra disso, vô, e eu não lembro?
- Deve ser por falta de uma vitamina chamada memoriola, que só existe na cebola.
Ele me olha que olha mas continuo firme, até que ele sussurra:
- Vamos fazer um trato, vô, eu passo a comer cebola e você deixa de falar mentira?
De volta à chácara, ele cata goiabas na goiabeira mas digo que não são boas como as do mercado, tem ferrugem por fora e bichinhos por dentro. Mas, limpando com faca, ele come várias goiabas, até dizer que tem uma grande ideia: comprar goiabas no mercado! Mas é domingo, digo, os mercados estão fechados. E a feira, vô? Feira é só de manhã, falo para sua tristeza olhando a goiabadeira já sem goiabas.
Mas, se gostou de goiaba, adianto que não perde por esperar a nova safra de atemoias, mas ele diz que não gosta de atemoia. Mas ao menos já provou? Não. Então: vai repetir o mesmo erro de não gostar porque não provou, que nem com a goiaba? Ele fica pensando até resolver:
- Goiaba é goiaba, vô, atemoia é atemoia.
Me conformo lembrando quanto tempo levei para gostar de legumes e verduras, hoje meus principais alimentos, e vou pesquisar na net se teimosia é hereditária.

Notícias da Chácara



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| Foto: Dalva Vidotte/ Divulgação



MACAÚBA


A palmeira macaúba é a mais alta árvore da chácara mas aparentemente inútil. Seus coquinhos, do tamanho de bola de ping-pong, tem casca dura a recobrir polpa tão fina que nem dá para mastigar. O caroço contém semente que daria fino e valorizado óleo, mas é duro de quebrar como pedregulho. E as grandes folhas, quando caem secas, tem longos espinhos, portanto seu destino é só o fogo. Mas por isso mesmo gostamos muito da nossa macaúba. Que não sirva para nada, sempre apenas alta e intratável, e talvez esta seja sua grande utilidade: mostrar como podemos ser felizes sendo o que somos. Ela não parece feliz?

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