Imagem ilustrativa da imagem AOS DOMINGOS PELLEGRINI
| Foto: Shutterstock



À flor da pele

Me cortei fazendo a barba. Não foi de ferir mas sangrou, apenas poucas gotas aflorando, mas é um sinal vermelho.
Se você se corta fazendo o que faz sempre, das três, uma. Ou está com a mão boba de tanta pressa, ou está ansioso com a cabeça longe.
Ou, então, quem se corta fazendo a barba é porque está começando a esquecer como fazer coisas triviais...
Pode ser, também – sinistra sabedoria - que você esteja se ferindo para talvez perceber algo que o tempo quer te dizer.
Certo é que me sinto mais ferido no fundo que na pele, onde – em menos de minuto - as gotas iniciais escorreram ao longo do corte, se convertendo em gotículas, e o vermelho vivo virou vermelho escuro.
O corte já marca o queixo com um risco. Sou bicho indiscutivelmente marcado, conforme o espelho, pode-se apenas discutir se marcado por quem, pelo descuido repentino ou pelo inescapável destino.
O sangue, sem qualquer átimo de dúvida, continua seu ritual, as gotículas já se transformando em longa e fina crosta, que o dedo está prestes a arranhar quando a cabeça lembra: "Esqueceu? Assim você já inflamou feridinhas até virarem feridonas, pare com isso!"
Por ficar a pele tão visível fora do corpo, não enxergamos que é nosso maior órgão. Não é fácil perceber o óbvio. Que quem evita te olhar nos olhos está de algum jeito te enganando. Que a reprimenda cutuca mas só o exemplo educa. Que sem consciência somos apenas animais. Que consciência é pensar nos outros em todo gesto teu.
Eu poderia ficar desfiando pensamentos mas tenho o que fazer, terminar a barba. Porque, pergunta um olho. Porque, responde outro olho, vivemos enredados na teia de convenções e obrigações, bonecos controlados por costumes. Nada me impede de deixar a barba crescer, mas o que pensariam os outros? "Teve barba, embranqueceu, tirou, agora quer o que, barba bicolor que nem o Brown?"
Então uma mão que não é minha, é a mão da sociedade, termina a barba já esquecendo do corte, mas, ao enxugar o rosto, eis sangue na toalha. O corte entretanto perdeu sua crosta, já é apenas um risco a ser absorvido sem nem deixar cicatriz, a pele plenamente vitoriosa.
Puxo a pele para ver melhor o corte, que se entorta como pequena boca a dizer: "Vê? Você só lembra de mim quando me fere..." Prometo tomar mais cuidado, e passo saliva no corte, beijo digital no próprio queixo. Sorrio, e meu já amigo Corte se mexe levemente, como a agradecer dizendo "vai, e vou te dar um presente".
Que presente, fico pensando, até pensar em escrever esta crônica.

Notícia da Chácara



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| Foto: Dalva Vidotte/ Divulgação



BALANÇANÇAS

Era uma vez dois meninos que pediram um balanço, faz um balanço, vô, faz um balanço! O vô se viu menino, a balançar debaixo da mangueira da casa da vó, naquele tempo que nunca acaba porque está sempre à mão na memória.
Então o vô fez balanço caprichado, de madeira retinha, correntes com pegadeiras de mangueira, e os netos balançaram que balançaram. Mas cresceram e agora passam pela mangueira sem nem olhar o balanço. Só o vô olha, balançando as lembranças.

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