Domingos Pellegrini Atualizado em 23/02/2018, 23:00
AOS DOMINGOS PELLEGRINI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Me cortei fazendo a barba. Não foi de ferir mas sangrou, apenas poucas gotas aflorando, mas é um sinal vermelho.
Se você se corta fazendo o que faz sempre, das três, uma. Ou está com a mão boba de tanta pressa, ou está ansioso com a cabeça longe.
Ou, então, quem se corta fazendo a barba é porque está começando a esquecer como fazer coisas triviais...
Pode ser, também sinistra sabedoria - que você esteja se ferindo para talvez perceber algo que o tempo quer te dizer.
Certo é que me sinto mais ferido no fundo que na pele, onde em menos de minuto - as gotas iniciais escorreram ao longo do corte, se convertendo em gotículas, e o vermelho vivo virou vermelho escuro.
O corte já marca o queixo com um risco. Sou bicho indiscutivelmente marcado, conforme o espelho, pode-se apenas discutir se marcado por quem, pelo descuido repentino ou pelo inescapável destino.
O sangue, sem qualquer átimo de dúvida, continua seu ritual, as gotículas já se transformando em longa e fina crosta, que o dedo está prestes a arranhar quando a cabeça lembra: "Esqueceu? Assim você já inflamou feridinhas até virarem feridonas, pare com isso!"
Por ficar a pele tão visível fora do corpo, não enxergamos que é nosso maior órgão. Não é fácil perceber o óbvio. Que quem evita te olhar nos olhos está de algum jeito te enganando. Que a reprimenda cutuca mas só o exemplo educa. Que sem consciência somos apenas animais. Que consciência é pensar nos outros em todo gesto teu.
Eu poderia ficar desfiando pensamentos mas tenho o que fazer, terminar a barba. Porque, pergunta um olho. Porque, responde outro olho, vivemos enredados na teia de convenções e obrigações, bonecos controlados por costumes. Nada me impede de deixar a barba crescer, mas o que pensariam os outros? "Teve barba, embranqueceu, tirou, agora quer o que, barba bicolor que nem o Brown?"
Então uma mão que não é minha, é a mão da sociedade, termina a barba já esquecendo do corte, mas, ao enxugar o rosto, eis sangue na toalha. O corte entretanto perdeu sua crosta, já é apenas um risco a ser absorvido sem nem deixar cicatriz, a pele plenamente vitoriosa.
Puxo a pele para ver melhor o corte, que se entorta como pequena boca a dizer: "Vê? Você só lembra de mim quando me fere..." Prometo tomar mais cuidado, e passo saliva no corte, beijo digital no próprio queixo. Sorrio, e meu já amigo Corte se mexe levemente, como a agradecer dizendo "vai, e vou te dar um presente".
Que presente, fico pensando, até pensar em escrever esta crônica.

Era uma vez dois meninos que pediram um balanço, faz um balanço, vô, faz um balanço! O vô se viu menino, a balançar debaixo da mangueira da casa da vó, naquele tempo que nunca acaba porque está sempre à mão na memória.
Então o vô fez balanço caprichado, de madeira retinha, correntes com pegadeiras de mangueira, e os netos balançaram que balançaram. Mas cresceram e agora passam pela mangueira sem nem olhar o balanço. Só o vô olha, balançando as lembranças.



