AOS DOMINGOS PELLEGRINI - O casal
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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Em 1986 Alta Floresta completava uma década e lá fui eu fazer reportagem naquela cidade no alto de Mato Grosso, que hoje tem 50 mil habitantes mas chegou a ter 100 mil no tempo dos garimpos. No pequeno aeroporto, os táxis esperavam entre poças d'água, cobertos por poeira grossa.
Fazia um dia azul quando casal de araras cruzou o céu, e só vi porque na rua alguém apontou. Uma voava meio corpo à frente da outra, as asas batendo em lenta elegância, à altura de um rojão, disse alguém.
Outro disse pois é, faz tempo que arara não cruza a clareira. Que clareira, eu ia perguntar, aí lembrei de no avião ter visto que a cidade era numa clareira na floresta. No hotel, mais alguém disse que, com a cidade e sua clareira crescendo, agora as araras rareavam, e aquele casal podia estar fugindo da derrubada.
Aí lembrei também de durante todo o dia ter ouvido roncos em redor, eram as máquinas cortadeiras de árvores. Mas porque o casal fugiria para a clareira em vez de para a mata? Pode ser de susto, falaram, derrubada chega a chacoalhar o chão.
Pensei então nas araras vivendo felizes na árvore onde fizeram ninhos e ararinhas, de repente um bruto ronco e a árvore começa a tremer, depois cai derrubando outras árvores já com meio corte, para caírem como dominós, a galharada a estralar quebrando, cipós chicoteando, o tombo do tronco sacudindo o chão e levantando repentina e breve chuva de folhas. Coisa de desnortear qualquer bicho.
De volta a São Paulo, ainda no tempo a.G. (antes do Google), pesquisei na Biblioteca Mário de Andrade, para saber que araras são monogâmicas, formam casal para toda a vida. Outra semelhança conosco é que, além de seus gritos estridentes, conseguem emitir voz modulada, chegando a imitar outros animais e até humanos, como os papagaios. E também tem como nós vida longa, chegando aos 60 anos.
Igualmente também levam comida à boca, graças a duas garras para a frente e duas para trás, como nossa preensão manual entre o dedo polegar e os outros, que nos permitiu ser o homo faber que evoluiu para o homo sapiens.
Mas não são hábeis para voos curtos, usando as garras para escalar árvores onde outros pássaros voejam. Então, quando viram caindo as árvores sustentadoras de sua vida, o casal desnorteado foi para a clareira, que permitia seu voo em baixa altitude.
Por isso, naquele dia alguém falou ah, se eu tivesse aqui a espingarda, me deixando com vergonha e tristeza de ser humano. E até hoje, quando vejo notícias de desmatamento e queimadas na Amazônia, lembro do casal de araras.

Notícia da Chácara
O carrinheiro que cata lixo achou lata ainda com tinta, pintou o carrinho, perguntei se para proteger do tempo, ele me olhou como se eu fosse bobo, dizendo que pintou para ficar mais bonito! Não deve ser por outra razão que também decoramos casas, colocamos a flor no cabelo ou a fita no chapéu, amantes da beleza, únicos seres artísticos do planeta. E descobrimos beleza até em velharias e rusticidades, como o moinho de café transformado em vaso ou o amor-perfeito florindo em tosca gamela. Arte nos conserte, nos redima e nos console.



