Ao pé do fogo
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2019
Domingos Pellegrini 
No primeiro dia de lua cheia, diz o avô, ela sai de noitinha - então vão fazer fogueira no quintal para ver a lua subir. A fogueira já está armada lá, os paus sobre os gravetos direitinho, portanto é só tomar banho, botar casaco e touca, jantar e ir sentar diante da fogueira esperando a Lua.
Diante da fogueira, o avô diz que cansou de sofrer soprando fogo, agora despeja um pouquinho de querosene, acende um fósforo e pronto:
- Olhaí, a fogueira do teu trisavô tropeiro! A fogueira ancestral, em redor da qual os humanos começaram a falar...
O avô olha o fogo, o neto olha o celular.
- Levanta a vista disso, guri! Olha a Lua nascendo!
O neto dá uma olhadinha na Lua subindo cheia, desce o olhar para a telinha, fala que a Lua não nasce:
- Ela só gira em torno da Terra, vô, como a Terra gira em torno do Sol.
Muito espertinho, resmunga o avô:
- Mas você continua só vendo essa telinha que viu o dia inteiro! Que é preciso fazer pra você tirar os olhos disso aí?!
- Dançar – o neto fala sério, enfiando o celular no casaco – Dança em volta da fogueira, vô?
Muito engraçadinho, o avô repete e aponta a Lua:
- Sabia que muita dessa tal tecnologia foi criada na corrida espacial para a conquista dela? É, o computador da primeira astronave que chegou lá era muito maior que esse seu celular e tinha muuuuito menos capacidade.
- Pois é, vô – o neto olha a Lua – Que conquista mais besta, né? Chegaram lá, andaram pra lá e pra cá, deram uns pulinhos, fincaram bandeira e trouxeram umas pedras...
- Queria que eles trouxessem o que se lá não tem nada?
- Então – o neto pega o celular – porque gastaram tanto pra ir aonde não tem nada? Nem dá pra respirar lá!
- É... – o avô olha o fogo – Mas sempre foi assim, as grandes descobertas vieram de guerras ou disputas, como entre Portugal e Espanha nas Grandes Navegações. E a televisão e o computador foram inventados para a Segunda Guerra Mundial.
- Então devia haver mais guerras, vô, pra haver mais invenções?
O avô fica olhando a Lua, mexe no fogo, diz que uma coisa é certa:
- Estamos diante de uma fogueira única. É, não existe outra fogueira igual a esta, como nunca existiu nem existirá. Porque cada fogueira tem seus paus sempre diferentes uns dos outros, ajuntados sempre de forma diferente, de forma que desde a primeira chama até o braseiro será sempre uma fogueira única, como toda impressão digital é única. Como não existe uma folha igual a outra no planeta, como nem mesmo gêmeos são perfeitamente iguais.
O neto olha a fogueira começando a esbrasear, acena:
- Oi, fogueira única.
Momento único, emenda o avô:
- Vida única, tudo é único. E nada se repete igual, a Lua amanhã já vai nascer mais tarde.
- Que bom, né, vô – o neto fala de olhar perdido no fogo – Se tudo fosse sempre igual, que chato seria, né? Toda hora igual, todo dia igual...
O avô enxuga os olhos, soluça leve, o neto estranha, o avô avisa que está chorando sim, mas é uma choradinha boa:
- De lembrar duma fogueira assim com meu avô. Ele me ensinou a fazer fogo, os gravetos por baixo, a lenha por cima...
- E – o neto pergunta baixinho – era uma fogueira mais única que esta nossa, vô?
Não, o avô corrige:
- O que é único a nada se compara - e enfim o avô deixa de olhar a Lua, o neto deixa de olhar o fogo e se olham nos olhos.


