Quando morre mestre muito querido, a gente vê quanto lhe deve. “Educação” vem do Latim “duco”, conduzir, e escrevo chorando pelo mestre Iran Martin Sanches, que me orientou para a vida em 1968.

Ele era diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Londrina, a Fafi, que funcionava à noite no Grupo Escolar Hugo Simas. Numa madrugada, pixei Abaixo a Ditadura nas paredes e fui flagrado por guarda-noturno. Em vez de me denunciar ou incriminar, Iran chamou para conversar. Perguntou se eu sabia que a Fafi tinha pintado aquelas paredes com dinheiro de rifas e pizzas dos professores, em retribuição ao acolhimento do grupo escolar. Se eu queria “propagar e discutir ideias”, porque não fazia um jornal?

Eu “pertencia” a partidinho clandestino que pregava a luta armada contra a ditadura, e ele me propunha jornalzinho estudantil, eu escrevendo e a Fafi imprimindo em mimeógrafo, mas eu teria de vender o jornal para pagar o papel. Desafio? Aceitei na hora, e passei a escrever O Coruja (coruja era o símbolo da Fafi), recolhendo moedas e notas amassadas na distribuição de sala em sala. Depois despejei o bolo de dinheiro na sua escrivaninha, e ele chamou o secretário Mário Takahashi para conferir e recibar, enquanto isso gostaria de me fazer umas perguntas.

Suas perguntas eram sempre sobre fatos, sem comentários nem opinião, e só muito depois vi que assim mostrava não querer orientar, só abrir os olhos para os fatos vistos de todos os lados. Inesquecíveis ficaram suas palavras quando falamos de Jesus e Guevara, morto no ano anterior. Leu meu artigo a tratar Che como mártir da Humanidade, aí perguntou simplesmente se o senhor Ernesto Guevara não era também um perdedor. Pois sua guerrilha no Congo não tinha sido vencedora, não? E depois Che morreu na Bolívia tentando fazer a mesma coisa, não? Então não era um perdedor?

Iran Martin Sanches
Iran Martin Sanches | Foto: Acervo pessoal

Fiquei fulo mas engoli, eram fatos, o próprio diário de Che confirmava que para sucesso da guerrilha faltou combinar com o povo. Mas, retruquei, Che continuava vivo como herói da luta por um novo mundo e um novo homem. Então ele perguntou se eu conhecia Jesus, porque também era um herói, tinha lutado contra o maior dos impérios e, mesmo tendo perdido a vida, tinha mudado e continuava mudando o mundo sem querer pra isso ter poder no mundo, não era verdade?

Retruquei que muitas guerras tinham sido em nome de Deus, mas, ele lembrou, não em nome de Jesus.

- Pois quando falamos Deus, lembramos poder. Quando falamos Jesus, lembramos de amor e perdão.

Na próxima vez, entreguei o dinheiro do jornalzinho contado e arrumadinho. Ele novamente leu página por página, enquanto eu esperava por suas perguntas. E lá vinha o recibo para assinar, tudo estritamente correto. Eu sonhava um novo mundo no futuro, ele me mostrava que é possível já melhorar este mundo, mostrando os fatos, fazendo perguntas, dando voz mas exigindo as moedas da responsabilidade.

Em nosso último encontro em Curitiba, na despedida falei “fique com Deus”, ele retrucou “estou sempre com Deus”, e só agora vejo como em Iran Martin Sanches isso sempre foi evidente.