Anarquismo é mistura de fracassada utopia e inútil rebeldia
Uma das marchas anarquistas chegou a 70 mil trabalhadores na capital paulista, uma das maiores manifestações cívicas brasileiras
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 2025
Uma das marchas anarquistas chegou a 70 mil trabalhadores na capital paulista, uma das maiores manifestações cívicas brasileiras
Domingos Pellegrini 

Na esquina das ruas Piauí com Hugo Cabral em Londrina a “casinha do DCE” (Diretório Central de Estudantes) está sempre fechada mas coberta de pichações, com destaque o símbolo do anarquismo. Que se vê também pichado aqui e ali por aí, como resquício de uma ideologia que nunca conseguiu chegar ao poder e, no entanto, ainda é lembrada com uma mistura de fracassada utopia e inútil rebeldia.
Anarquismo nada tem a ver com anarquia no sentido de bagunça: a palavra vem do Grego “an” (sem) e “arkhé” (governo), ou seja, uma sonhada sociedade sem governo. É utopia que ainda encanta jovens até a realidade mostrar que, como o dinheiro, o governo é invenção indispensável dos humanos. Com o pix o dinheiro até deixa de existir fisicamente, mas sem ele não teríamos comércio e indústrias, empresas e autônomos, impostos e governos, como também, sem governo, não teríamos saúde, educação e segurança públicas.
Mas, lá em 1917, era tal a exploração dos trabalhadores, inclusive com trabalho infantil em massa, sem férias e com jornadas de até 13 horas, que sindicatos anarquistas organizaram a partir de São Paulo protestos e marchas que acabariam forçando a abolição daquela “escravidão branca”.
Uma das marchas chegou a 70 mil trabalhadores na capital paulista, uma das maiores manifestações cívicas brasileiras, como a Passeata dos Cem Mil na ditadura militar em 1968 e as marchas de 2023.
O anarquismo chegou ao Brasil com os emigrantes italianos, como seriam de origem italiana os anarquistas de Colônia Cecília no Paraná, fracassada como todo empreendimento anarquista (questão até de coerência: pois como poderia funcionar algo que já se diz e se quer sem governo?).
Além da realidade, o maior inimigo do anarquismo foi o comunismo, que triunfaria na Rússia em 1917 e chegaria a governar 15 países europeus. Mas, como o anarquismo por típica indisciplina jamais conseguiu o poder, o comunismo, por entranhado autoritarismo e corrupção sistêmica, não conseguiu manter-se no poder, e todos seus governos caíram em efeito-dominó após a queda do Muro de Berlim em 1989, com incapacidade demonstrada pelo racionamento de alimentos desde o primeiro ao último dia.
Até por ser de desenho mais difícil, o símbolo do comunismo (a marreta e a foice cruzadas) não se vê mais, mas o símbolo do anarquismo resiste, pichado por jovens que decerto nem devem saber seu significado: o O e a A cruzados representam “Anarquia é Ordem” (uma nova ordem, sem autoridades, governo, instituições e igrejas). Para isso, a autogestão foi a solução indicada pelos anarquistas, mas basta ir a uma reunião de condôminos para ver que a grande maioria das pessoas não quer ajudar a gerir seja o que for. Pode-se até apostar que os seres humanos se dividem em dois tipos, os poucos que querem governar e os muitos que querem ser governados...
Isso talvez explique a permanência do símbolo anarquista, tão querido por alguns quanto ignorado por muitos, e decerto por isso também decora uma casinha fechada numa esquina movimentada. Mas, se de tudo fica um pouco, do anarquismo ficou muito, pois os direitos trabalhistas de hoje vêm lá de suas lutas passadas. Os anarquistas da casinha poderiam receber nossa gratidão, se um dia abrirem a casinha.
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