- Então você vai ou não vai me contar se brincava de sexo com seus amiguinhos de infância - ele fala e aí fica aquele silêncio tão escuro que ela resolve rir, ele pergunta rindo o que é tão engraçado.
Tudo na minha infância era engraçado, diz ela docemente, desde brincar com pedregulhos até fazer boizinhos e vaquinhas de espigas de milho, a gente brincava até com o vento, tudo brinquedo natural e de graça... Chupar cana no barranco vendo o cinema das nuvens, bichos e monstros...
-Se eu fosse psicanalista - ele fala frio - não deixaria de ver que espigas de milho podem ser vistas como símbolos fálicos, principalmente perto de boizinhos e vaquinhas...

Imagem ilustrativa da imagem Ainda brincando de sexo
| Foto: Shutterstock



-Ah, ela suspira e cantarola, ah, era mesmo um mundo cheio de sexo, sexo por todo lado o tempo todo - continua secamente: - os homens saindo antes de sol com suas enxadas e foices, as mulheres cuidando da casa, dos porcos e das galinhas, tirando leite das vacas, fazendo almoço pra levar na roça, onde os homens batiam enxada do primeiro sol até quase meio-dia, quando chegavam elas com as marmitas, comiam debaixo de árvore, descansavam um tiquinho de tempo, pegavam de novo na labuta eles e na lida elas, capinando também um pouco antes de voltar pra casa no meio da tarde pra lavar roupa, fazer pão, fazer a janta, lavar a louça, últimas a deitar e primeiras a levantar, ah, era um excesso de sexo!

Desculpe, ele balbucia, ela fala tudo bem, e o silêncio vai até ele dizer que era uma curiosidade boba, claro, porém talvez até mesmo um tanto antropológica, curiosidade de saber como era a iniciação sexual naquele mundinho agrário sem cinema num tempo sem tevê.
É, ela lembra, a tevê só começou depois da mudança para a cidade, já mocinha mas...
- Ei, não foi você que disse não querer detalhes?
- Disse - ele faz voz casual - Mas conforme não fui sentindo ciúme do assunto, não vejo porque não enriquecer nossa relação abrindo esse bauzinho.
Então tá, diz ela, vamos abrir o bauzinho. Oral ou anal?

O engasgo dele dá pra ouvir no escuro. O que?! Oral ou anal, ela repete, vamos começar abrindo o bauzinho oral ou anal?
- Porque o vaginal, você sabe desde nossa noite de núpcias, sempre foi virgem.
- É - ele fala com tonta voz - só se é virgem sempre... Mas...
Silêncio. Diga, diz ela, mas o que? Não sei, engole ele, não sei o que dizer.
- Então talvez - ela cantarola - não será melhor começar pelo sexo coletivo?
- Co-le-ti-vo? - ele pergunta como se recebendo golpes, ela solta risadinha: ah, coletivo mas nem tanto, só uns três ou quatro.
- Três ou quatro?! - ele salta da cama, fica caçando as sandálias com os pés no escuro - Três ou quatro?!!
Ela acende o abajur e olha em volta:
- Ué, você viu aquele homem que não tem ciúme?
Ele acha as sandálias mas perde o equilíbrio, cai sentado na cama, ela abraça pelas costas com voz doce: seo bobinho, não vê que eu estava brincando?
- Meus amiguinhos de infância eram crianças que só viam graça em brincar, mais nada, carinho só faziam em cachorro, trepar só trepavam em árvore, boca era só pra comer e assobiar, bunda só pra sentar! E quando mudamos pra cidade, meu primeiro namoradinho só pegava na mão, o segundo deu uns beijinhos mas beijo de verdade mesmo, beijo de língua e de alma...
Ele enrijece, ela abraça mais e fala no ouvido:
- Beijo de língua e de alma, mesmo, foi só com o terceiro namorado, com quem aliás casei, lembra?
Ele deita, ela deita em seu peito e pergunta baixinho: já chega de sexo? Vamos, ele sussurra, fazer sexo sonhal.
Depois só fica o silêncio; até, claro, começarem os roncos.

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