Abre e fecha aspas
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Domingos Pellegrini 
Amigo dizia que enjoava ver telejornais tão repetitivos:
- Não aguento mais ouvir de corruptos que “estão à disposição da Justiça”. Ora, claro que estão! Só não estariam se não estivessem sendo indiciados!
Ele chegava a ficar possesso:
- É muito cinismo! Uns dizem ser fatos passados, como se alguém pudesse ser incriminado por fatos futuros! E outros dizem que esperam demonstrar inocência no decorrer do processo, como se isso também fosse possível antes ou depois do processo! E há ainda os que se dizem indignados, como se indignação fosse borracha ou mata-borrão...
Meu amigo é jornalista que perdeu emprego em jornal e virou assessor de imprensa, então eu, de brincadeira, perguntei porque ele não escrevia justificativas melhores para indiciados e processados, já que até virou moda apresentar narrativas no lugar dos fatos... Ele protestou:
- Não vou me prostituir pra ganhar o pão de cada dia!
Falei que era só brincadeira mas por que não? A defesa é um direito, e assim poderia livrar os telespectadores de tantas mesmices. Pois dias depois ele apareceu com uma lista de ideias:
- Para acusado de formação de quadrilha: “O deputado fulano de tal declara que só participou de quadrilha em festa julina”.
- Para assessor indiciado por lavagem de dinheiro: “O assessor beltrano declara que só lavou dinheiro uma vez, ainda rapazola, porque o dinheiro da mesada caiu no barro quando soltava pipa”. Pois o detalhe é a alma da mentira, meu amigo: “caiu no barro quando soltava pipa...”, é até enternecedor, não é?
- Para senador propinado por multinacional: “O senador sicrano assegura que não conhece ninguém da referida multinacional, não teve ou tem qualquer relação ilegal com qualquer empresa e, desde criança, aprendeu com seus avós e seus pais que a honestidade é o melhor negócio e, se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem!” Legal, né?

Tudo bem, brinquei eu, mas podia ter de pagar direito autoral ao Jorge Ben Jor, que é autor dessa frase. Meu amigo disse que então seria uma doação da MPB ao PMDB, e continuou:
- Para vereador que quer aumentar salário apesar do povo gritando contra no plenário: “O aumento de salário dos vereadores é um símbolo de recuperação da economia e também de isonomia, para aumento dos salários em geral no país!” O cara deixa claro que só aceita aumento de salário porque isso servirá para o povo também pedir aumento, não é lindo?
É lindo, concordei, e ele continuou entusiasmado:
- Para prefeito acusado de licitação orientada para que só algumas empresas ganhem: “Os fatos arrolados pelos promotores apenas indicam que a atual lei de licitações é confusa e permite erros que, no fim das contas, só retardam obras e prejudicam a comunidade”. O cara meio que confessa erros mas cometidos para o bem do povo!
Genial, disse eu, e ele disse que faltava ainda a pérola final:
- Para qualquer político acusado seja do que for: “O acusado reconhece erros em sua conduta mas lembra que se deveram ao ambiente degradado que encontrou nos poderes públicos, sendo praticamente forçado a aderir a meios e modos contrários a sua formação moral, para não se ver impedido de trabalhar em prol de nossa gente”.
- Não é cara de pau demais? – indaguei e ele garantiu que não:
- É narrativa, cara, e hoje narrativa é o que vale! Não importa o que aconteceu, mas sim como se conta! E, aqui entre nós, já tenho até nome para minha assessoria de imprensa! Agência Aspas! Não é genial?
Genial, concordei, genial. E ele realmente abriu sua agência, conseguiu muitos clientes, todos porém com o costume de não pagar contas, e então a Agência Aspas logo fechou. Que nem aspas.


