A partir de um ninho no chão, lembranças e muita gratidão
Sou grato também ao colibri que passa visitando as flores, bicando cada uma e se afastando ligeirinho
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de janeiro de 2026
Sou grato também ao colibri que passa visitando as flores, bicando cada uma e se afastando ligeirinho
Domingos Pellegrini 

Sou grato, vento, por ter derrubado da árvore o ninho que fotografei – como sou grato também por viver num tempo em que podemos ter na palma da mão um telefone que fotografa, filma, toca músicas e pode vídeo-falar com alguém do outro lado do planeta.
Sou grato por lembrar que o mesmo celular que nos conecta com o mundo pode nos deixar cada vez mais sozinhos, por isso sou grato igualmente aos amigos e parentes que me procuram e que me prometo procurar mais.
Sou grato ao passarinho que fez o ninho, com tantos fiapos de capim, por mostrar que toda obra bem feita exige paciência, dedicação e atenção aos detalhes.
E eis que passa tranquilo pelo gramado um dos lagartos do quintal, e agradeço por sua lição de calma e destemor, pois parecendo assim inofensivo entretanto pode lutar bravo com garras e presas, vejo no celular.
Talvez por isso nossa gata Lili, caçadora de tantas pombas, deixa ele sempre em paz.
Agradeço também por ser escritor que usa “deixa ele” em vez de “deixa-o”, esperando assim contribuir para a Língua Brasileira, filha rebelde e inovadora da Língua Portuguesa.
A língua é nossa companheira diária, fazendo lembrar com terna gratidão o apego de nossa cachorra Branquinha, companheira de todos os momentos, só nos deixa para passar a noite na sua casinha.
Então lembro também de agradecer gambá que fez ninho em nossa primavera, planta tão espinhenta mas decerto por isso mesmo escolhida para abrigar e defender o ninho. Sentimos crença na vida vendo a gambá subir pelo caule sem espinhos da planta espinhenta nos galhos, para chegar ao ninho feito de folhas sabe Deus como, cada bicho nasce sabendo arquitetar. E depois de semanas agradecemos ver a mãe gambá a descer do ninho com a barriga cheia de filhotes, um deles com a cabeça para fora como ansioso por conhecer o mundo.
Dalva e eu também ficamos gratos ao encontrar penas de pomba nalgum canto da casa, a nos lembrar que a gata Lili veio comer aqui o que caçou no quintal (e muito nos intrigava não encontrar cabeça das pombas entre as penas, até o jardineiro contar que gato de ascendência maracajá come passarinho com cabeça e tudo).
Sou grato também ao colibri que passa visitando as flores, bicando cada uma e se afastando ligeirinho, única ave a voar para trás, a nos lembrar como é tão cheio de diversidade o planeta que o Sol nos doou há apenas menos de 5 bilhões de anos. Agradeço pelo espanto de saber que colibris batem as asas mais de mil vezes por minuto, embora repousando até entrem em letargia com o coração batendo só 50 vezes por minuto...
Deitado na rede, apenas olhando o quintal e a varanda onde Branquinha ressona como sempre, agradeço por tudo que posso ver, e, abrindo a janela do celular, tudo que posso saber!
Sou grato portanto, grato por tanto, e grato ainda e sobretudo por ver e sentir tudo que se apresenta para sentir e ver, ou como diria o nonno José:
- Ê, mundo véio sem porteira, eu dum lado e ocê do outro, ribeirão passa no meio!...
E finalmente agradeço por só agora entender, nonno, que o tal ribeirão é a vida.


