No primeiro disco de Gilberto Gil, Louvação, em 1967, a música Procissão toca em três cordas mestras da vida social, o trabalho, a religião e a política.

Durante milênios já tinham tratado disso muitos filósofos do Ocidente e do Oriente, mas na música de Gil é um cantador do povo quem vê esse trio caminhando juntos.

(Antes há uma abertura, com canto coral de procissão em tom alto e ritmo arrastado: “Meu divino São José / aqui estou em vossos pés / Dai-nos chuva em abundância / meu Jesus de Nazaré”... – criando clima pungente para a procissão, o recurso humano contra a rendição à seca. A esse começo solene e lamentoso o cantador oporá sua poesia ritmada mostrando a alguém - “olha lá” - a procissão, ou seja, a vida.)

“Olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra pelo chão / e as pessoas que nela vão passando / acreditam nas coisas lá do céu / eles vivem penando aqui na terra / esperando o que Jesus prometeu”.

Sobe o tom: “E Jesus prometeu coisa melhor / pra quem vive neste mundo sem amor” (mas) / só depois de entregar o corpo ao chão / só depois de morrer neste sertão”.

O “más” implícito expressa que “coisa melhor”, seja Céu ou outro paraíso, virá só depois da morte.

O cantador ressalva: “Eu também tô do lado de Jesus” – mas cobra: “só que acho que ele se esqueceu / de dizer que na terra a gente tem / de arranjar um jeitinho pra viver”.

São versos que ecoam a doutrina social de muitas igrejas, a visar e promover o trabalho, do José carpinteiro aos pioneiros pilgrims americanos.

Mas então o cantador muda de visão, deixando de olhar longe para, com linguagem chã, olhar em redor a sua gente, a sua “polis” ou comunidade submetida por políticos “Muita gente se arvora a ser deus / e promete tanta coisa pro sertão / que vai dar um vestido pra Maria / e promete um roçado pro João”.

A quadra final reforça a esperança em redenção porém social e em vida: “Entra ano e sai ano e nada vem / meu sertão continua ao deus-dará / mas se existe Jesus no firmamento / cá na terra isto tem que se acabar”.

Escrita num tempo em que a chamada música de protesto era apreciada e louvada como contraponto à ditadura militar, Procissão apresenta visão e linguagens coerentes com a impotência e a paciência populares que se vê na realidade. O cantador não convoca revolta mas constata com esperança: “isto tem que se acabar”.

Retorna-se então ao começo: “Olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra pelo chão / e as pessoas que nela vão passando / acreditam nas coisas lá do céu / as mulheres cantando tirem versos / os homens escutando tiram chapéu / eles vivem penando aqui na terra / esperando, esperando o que Jesus prometeu”.

A repetição de “esperando” parece lamentar ou criticar a resignação, confirmando ser uma música que fala mais pelo que não diz mas deixa a entender. Transparece ser um convite para não apenas esperança consoladora mas ação transformadora. Se o cantador não deixa por menos, também não se ilude ademais. É uma música social brasileira.

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