Depois de basquete na juventude e piscinas durante décadas, e depois de muitas caminhadas e hidroginástica, cheguei ao ponto da estrada em que o esporte é a jardinagem. Com muito agacha-levanta arrancando matinhos, a pá como companheira de plantios, o tesourão parceiro de podas, o facão se prestando pa'ra tudo e o macacão úmido de suor - assim fui descobrindo esse companheiro maior de todos, que todo mundo tinha quando fui menino e agora muitos não têm na cidade vertical. Mas não é pra dar saudade a ninguém nem espezinhar de quem não tem quintal que falo aqui esse terreno companheiro, que continuará aqui quando a passar, e que nos dá até poesia.

Quintal é bicho vivo

cresce por fora e por dentro

os galhos se espalhando

raízes se conhecendo

*

(Árvores têm vizinhança

e vão se correspondendo

mesmo se assim à distância

conversando pelo vento

*

Trocam cheiros e flores

lançando seus verdes acenos

como irmãs distantes

sempre se reconhecendo)

*

Quintal também tem cantinhos

onde os netos vão brincar

e não tem um passarinho

que passa aqui sem cantar

*

Quintal também tem fogueira

e portanto tem histórias

igual flor tem borboletas

como gente tem memória

*

Aqui o nonno plantou

e isto aqui foi a nonna

tem pé até de mamona

tanta flor pra beija-flor

*

Os urubus lá no céu

são antenas do quintal

a ligação com o azul

a galáxia e tal

*

No chão quintal sempre tem

também vidas infinitas

no mundo das minhocas e

micróbios enrustidos

*

Caminha com as formigas

levita com borboletas

tem as árvores antigas

e flores de repente

*

Quintal é o remédio entre

o campo e a cidade

o pedacinho da gente

no mundo da Humanidade

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