A geada valoriza um velho companheiro de vida, o quintal
Não é pra dar saudade a ninguém nem espezinhar de quem não tem quintal que falo aqui desse terreno companheiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2025
Não é pra dar saudade a ninguém nem espezinhar de quem não tem quintal que falo aqui desse terreno companheiro
Domingos Pellegrini 

Depois de basquete na juventude e piscinas durante décadas, e depois de muitas caminhadas e hidroginástica, cheguei ao ponto da estrada em que o esporte é a jardinagem. Com muito agacha-levanta arrancando matinhos, a pá como companheira de plantios, o tesourão parceiro de podas, o facão se prestando pa'ra tudo e o macacão úmido de suor - assim fui descobrindo esse companheiro maior de todos, que todo mundo tinha quando fui menino e agora muitos não têm na cidade vertical. Mas não é pra dar saudade a ninguém nem espezinhar de quem não tem quintal que falo aqui esse terreno companheiro, que continuará aqui quando a passar, e que nos dá até poesia.
Quintal é bicho vivo
cresce por fora e por dentro
os galhos se espalhando
raízes se conhecendo
*
(Árvores têm vizinhança
e vão se correspondendo
mesmo se assim à distância
conversando pelo vento
*
Trocam cheiros e flores
lançando seus verdes acenos
como irmãs distantes
sempre se reconhecendo)
*
Quintal também tem cantinhos
onde os netos vão brincar
e não tem um passarinho
que passa aqui sem cantar
*
Quintal também tem fogueira
e portanto tem histórias
igual flor tem borboletas
como gente tem memória
*
Aqui o nonno plantou
e isto aqui foi a nonna
tem pé até de mamona
tanta flor pra beija-flor
*
Os urubus lá no céu
são antenas do quintal
a ligação com o azul
a galáxia e tal
*
No chão quintal sempre tem
também vidas infinitas
no mundo das minhocas e
micróbios enrustidos
*
Caminha com as formigas
levita com borboletas
tem as árvores antigas
e flores de repente
*
Quintal é o remédio entre
o campo e a cidade
o pedacinho da gente
no mundo da Humanidade


