Quando o Império Romano conquistou a Judéia, a última resistência foi Massada, fortaleza no alto de platô, com fonte de água e colheitas armazenadas. Os romanos cercaram com milhares de homens mas Massada resistiu durante dois anos, em 73 e 74, causando muitas baixas aos romanos e apreensões em Roma, temerosa de que aquilo inspirasse rebeliões no império.

Massada tinha muitas pedras a lançar platô abaixo, mas enfim os romanos colocaram prisioneiros judeus a construir rampa de acesso – e então, para não abater sua própria gente nem também se render, os 960 defensores se mataram, muitos com as próprias famílias, deixando para Roma apenas desglória e, para Israel, uma fonte de orgulho e turismo.

Dois milênios depois, a Ucrânia supera Massada resistindo quatro anos a inimigo poderoso, tornando-se símbolo mundial de soberania nacional. Comparada à gigantesca Rússia, cujo território é duas vezes maior que o do Brasil, e com população quatro vezes menor, a Ucrânia cresceu em eficácia: conforme a BBC, teve até agora entre 60 e 100 mil mortos na guerra, enquanto a Rússia teve em torno de 250 mil. Exemplo dessa eficácia foi no primeiro dia de invasão, quanto os russos penetraram fácil na fronteira que a Ucrânia não defendeu, sem trincheiras nem casamatas; mas, quando pararam para descanso noturno, dezenas de tanques foram liquidados até por coquetéis molotov, revelando a estratégia ucraniana de lutar criativamente contra o gigante, como Davi com sua funda.

A tenacidade ucraniana só se compara à sua inteligência, atingindo o agressor com ataques tão letais quanto surpreendentes, enquanto os russos pouco avançam até por lhes faltar o que sobra aos ucranianos, motivação para lutar. Assim, a Rússia continua militarmente emperrada e cutucando com drones sua Massada, com grande parte de seu povo anestesiado pela paixão imperialista de poder (a “Grande Rússia”) e pela veneração a um líder forte, pois Putin continua com popularidade.

Esse gosto russo por autoridade, que transparece na literatura russa desde o tempo dos czares, parece também sustentar o regime chinês, aliado da Rússia, prenunciando-se assim terceira guerra mundial e nuclear, que poderá destruir ou lesar profundamente a Europa e o mundo.

Temerosa dessa guerra total com a Rússia e seu arsenal nuclear, a Europa ajuda a Ucrânia mas a deixa lutar sozinha, enquanto os Estados Unidos, devido à polarização ou bobalização política, passa a batata quente duma mão para outra. Assim a Ucrânia tornou-se peça central de um tabuleiro que se tornou mundial, com as democracias jogando contra um imperialismo que, graças à China, tem raízes econômicas por todo o mundo.

Sintomaticamente, Zelensky é o único líder no tabuleiro que não usa gravata, a simbolizar que a política e os povos precisam de novas visões e nova política. Porém a História mostra que novas armas nunca deixaram de ser usadas, bastando para isso haver Putins. Portanto esperemos que 2026 não seja o ano da fortaleza Ucrânia se tornar guerra mundial.

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