A ditadura e a atual polarização ou bobalização ideológica
Os dois lados da atual polarização se recusam sistematicamente a ver os fatos e acreditam piamente em narrativas
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de setembro de 2025
Os dois lados da atual polarização se recusam sistematicamente a ver os fatos e acreditam piamente em narrativas
Domingos Pellegrini 

Sete de setembro é dia certo para lembrar que, em 2014, numa feira de livros falei que tivemos uma ditadura branda (por exemplo centenas de vezes menos matadora que a da Argentina, e permitindo partido de oposição que a engoliria nas urnas, após o que os militares sensatamente entregaram o poder).
Para os atingidos diretamente – mortos, presos, exilados – claro que foi terrível, mas pesquisando vê-se que todas as ditaduras latinas foram muito piores, e não falei que foi boa mas sim que foi branda; não há ditadura boa. Disse também que continuar demonizando-a depois de meio século era empurrar os militares para a direita (e quatro anos depois surgiria o bolsonarismo, redundando em tentativa de golpe com militares agora em julgamento).
Falei aquilo por nojo político, depois de ver na feira de livros painéis idolatrando por exemplo Carlos Lamarca e Carlos Marighela como mártires da democracia, que na verdade queriam (como eu então) derrubar a ditadura militar pelas armas, inspirando-se na Revolução Cubana, para instalar uma ditadura comunista “do proletariado”. Dentre as centenas de exilados brasileiros, ao voltar ao Brasil somente Fernando Gabeira e Alfredo Syrkis tiveram a decência de lembrar isso, e, passando por Londrina, Gabeira me falou que sofreu represálias por isso (eu até hoje sofro, com queda na vendagem de livros e muito menos convites para palestras).
Meu nojo político ao dizer aquilo foi motivado também por uma professora que, em sala dedicada ao Pasquim, dizia a sua turma de alunos que o grande jornalzinho “foi fechado pela ditadura”, quando me senti no dever de dizer que não, pois conforme Jaguar, seu último editor, foi fechado “por incompetência administrativa”. Ela furiosa me chamou de “direitista”, como se isso fosse uma maldição e não alternativa usual nas democracias, e levou seus alunos para longe do maldito, em atitude típica dos dois lados da atual polarização, que se recusam sistematicamente a ver os fatos e acreditam piamente em narrativas, evidenciando que é na verdade uma bobalização.
Em 1968 eu “pertencia” (como dizíamos) a um partidinho clandestino comunista, que se dizia representante do proletariado oprimido mas, na verdade, era formado quase só por jovens burgueses, cuja meta era instalar uma guerrilha redentora nalgum lugar do país (como só o PcdoB conseguiria fazer no Araguaia, para sacrifício inútil de 60 militantes).
Crente nisso, passei seis meses com mochila pronta para fugir de casa quando fosse chamado para guerrilha, até descobrir que era um delírioideológico.
Mas em 1974 o povo mostrou o caminho, passando a votar no MDB de oposição permitido pela ditadura, e, conhecendo então José Richa, Álvaro Dias, Hélio Duque, Osvaldo Macedo, Olivir Gabardo e Wilson Moreira, entrei no MDB (o MDB de então...), aí realmente ajudando a derrubar pelo voto a ditadura.
Agora ainda navegamos lutando contra as ondas da corrupção e o mar da incompetência, mas aqueles companheiros ensinaram que o caminho não é pelas marés da esquerda ou direita, é pelo mar da educação política e da participação consciente e consequente. E da ditadura guardei a frase de Jean-Pierre Faye citada pelo general Golbery: “Direita e esquerda são como as pontas duma ferradura, que se acham diferentes e distantes mas são próximas e semelhantes”.


