Houve um tempo em que quem se tatuava era diferente. Nunca me tatuei, e hoje tantos se tatuam tanto que me tornei diferente por não ter tatuagem.

Isso me faz lembrar que um dia, ainda no século passado, passeando por Amsterdam senti sede mas nenhum bar estava aberto, nem um! Quando achei um aberto, pedi água, bebi, pedi um chope e perguntei porque só aquele bar estava aberto. Porque, soube então, aos domingos os bares só abriam a partir das cinco em Amsterdam, nisso entraram dois moços e pediram chope, beberam com a mesma sofreguidão.

Um tinha uma tatuagem de cobra saindo do nariz, uma cobrinha da grossura de dedo mindinho, subindo pela face e de boca aberta para morder o olho. O outro tinha corujinha pousada sobre a sobrancelha. Com meu pouco inglês, perguntei se eles formavam uma tatoo-dupla, a coruja de um pronta a comer a cobra do outro. Eles riram e em seguida entristeceram com olhares perdidos nos canecos. Cutuquei: não gostavam de falar das tatuagens?

Não, não gostavam, disse o Cobra, emudecendo e afundando o olhar na caneca. Perguntei se podia pagar mais chopes para eles, para me contarem a história de suas tatuagens. Eles trocaram olhar e me deram os canecos vazios, pedi para encher e então, trato feito, o da Cobra contou:

- Todo mundo me pergunta porque essa cobra, e pensam que estou mentindo quando digo que não sei. E não sei mesmo, só pedi uma tatuagem chocante, eu era muito novo e bobo. Aí o tatuador me deu várias ideias, achei essa a mais chocante.

Amsterdam
Amsterdam | Foto: Shutterstock

Bebeu um gole amargo, continuou:

- Acho que eu queria muito chocar meu pai. E ele não se chocou, só deu uma olhada, primeira e última, e disse apenas “espero que não se arrependa”.

- E se arrependeu?

- Quando tatuei – falou com olhar longe – eu não tinha esta dobra aqui – o rictus da cara – e agora isto corta a cobra. E... – encarando o caneco vazio – descobri que as pessoas têm muito medo de cobras.

Suspirou fundo:

- E quem é que emprega alguém com uma cobra saindo do nariz? Por mim, eu já tinha tirado isso daí mas custa caro.

- Então se arrepende da tatuagem?

Eles trocaram olhar, pegando novos canecos cheios, brindaram confiantes - To our tattoos! (a nossas tatuagens) - e beberam desafiantes. E você, perguntei ao Coruja, quer falar alguma coisa? Não, ele falou, coruja apenas olha...

Hoje aquele holandês deve ter muito mais rugas e, se não conseguiu tirar a cobra da cara, ela pode estar não só cortada como fragmentada. E talvez até esteja com o corpo coberto de tatuagens, como muitos fazem hoje, como a máfia japonesa Yakuza faz há séculos.

Mas, naquele dia, eu não podia supor que um dia as tatuagens cobririam braços, como longas luvas negras rendilhadas por tantas tatuagens que não vemos direito nenhuma. Então me espantei quando o Coruja revelou que eram ingleses e estavam em Amsterdam justamente para fazer mais tatuagens. Perguntei se na cara, eles riram, não, seriam em locais mais, trocaram olhar, mais, trocaram outro olhar e riram, locais mais reservados, falou o Coruja.

- Perto daquela outra cobra... - revelou o Cobra piscando, e perguntou se eu queria pagar mais chopes para ele contar a história da nova tatuagem. Se era nova, falei, tinha pouca história, e pedi a conta.

Quando fui saindo, o Coruja piscou, a coruja mexeu na testa. O Cobra sorriu, a cobra contorceu. Da porta, brinquei que ia fazer uma tatuagem na planta dos pés: assim, se me arrependesse, nem eu ia ver... E eles riram tristes.

Agora um neto me pergunta quando vai poder se tatuar, digo que é melhor esperar, para não se arrepender. Esperar até quando, ele pergunta, então lhe conto a história da cobra e da coruja.

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