O Brasil é o 3º maior exportador agrícola do Planeta atrás, apenas, dos Estados Unidos e da União Europeia. Isto é relativamente novo, já que em 1970 o país importava alimentos porque não tinha capacidade de autoabastecer-se. Foi a partir dessa década que o governo brasileiro reagiu, desencadeando ações que fizeram a produção agrícola deslanchar - o estabelecimento da Embrapa, entre elas. O desenvolvimento da cultura da soja foi o carro chefe dessa transformação. Atualmente, produção agrícola não só autoabastece o País, como gera vultosos excedentes exportáveis: mais de US$ 1 trilhão de superávit nos últimos 18 anos.

O País é reconhecido como eficiente na produção agrícola dentro da porteira, mas padece de inúmeros gargalos fora dela, não só no transporte, armazenagem e processamento dentro do território nacional, mas, também, na projeção da sua imagem junto aos consumidores internacionais e no marketing dos produtos que disponibiliza no mercado global. Falta maior presença das empresas brasileiras junto aos mercados consumidores mundiais, alerta o professor Marcos Jank.

A Ásia é o maior mercado para os produtos brasileiros, com crescimento espetacular no correr das duas últimas décadas. No ano 2000, o Brasil exportava apenas US$ 20 bilhões: 20% do que exporta atualmente (US$ 100 bilhões). E tem potencial para crescer mais, dada a concentração no continente asiático de mais de 60% da população mundial e onde a renda/per capita mais cresce, prevendo-se maior consumo futuro.

icon-aspas “O Brasil, além de animar-se com a possibilidade de vender mais carne suína, precisa de medidas sanitárias redobradas para evitar o ingresso da doença”

Na Ásia, a China é o principal mercado para as exportações brasileiras: 40% do total exportado para o continente, sendo que 70% constitui-se de apenas duas commodities: soja em grão e minério de ferro, produtos com baixo valor agregado. Cerca de 100 Mt de soja são importadas anualmente pelo governo chinês; 70 Mt só do Brasil. Infelizmente para o Brasil, a China importa a soja, grão rico em proteínas vegetais, para transformá-las em proteínas animais, agregando valor e gerando empregos dentro do território deles.

No entanto, a partir de agosto de 2018, um surto da Peste Suína Africana (PSA) está afetando a produção dessa carne na China e deverá reduzir as importações de soja do Brasil, considerando a queda de consumo do grão pela morte estimada de 200 milhões de animais, de um total de 700 milhões. Em contrapartida, a China deverá incrementar as importações de carne suína, abrindo uma janela de oportunidades para o Brasil exportar mais carne, produzida a partir dos grãos de soja e de milho que deixará de exportar pela queda no consumo. Antes de voltar à normalidade, essa contrariedade sanitária chinesa deverá perdurar por cinco ou mais anos, podendo alastrar-se para outros países da região, antes de ser controlada.

Segundo estimativas do Rabobank, as importações chinesas de carne suína deverá dobrar em 2019 em comparação com 2018, promovendo alta generalizada no preço de mercado de todas as carnes, não apenas da de porco. Desde o início de 2019, a cotação dos suínos na Bolsa de Mercadorias de Chicago subiu 52%, diante da estimativa de queda da produção chinesa de cerca de 30% até 2020, segundo analistas do Rabobank. Os produtores brasileiros já sentiram os efeitos positivos da queda de produção do maior produtor mundial de suínos e o consequente aumento da demanda. Santa Catarina e Mato Grosso, por exemplo, já estão beneficiando-se. As exportações de carne suína e de frango no primeiro trimestre de 2019 aumentaram 12% em Santa Catarina e, no mesmo período, o preço do suíno vivo no Mato Grosso aumentou 25%.

A PSA é uma doença contagiosa que ataca suínos e seus assemelhados (javali, por exemplo). É altamente contagiosa e se transmite pelo contato com animais doentes via secreções nasais ou orais, ferimentos, picadas de carrapatos ou consumo de alimentos contaminados.

O Brasil, além de animar-se com a possibilidade de vender mais carne suína ao país asiático, precisa ficar antenado sobre necessidade de medidas sanitárias redobradas para evitar o ingresso da doença, pois na década de 1970, o Brasil também enfrentou uma epidemia de PSA. Evitar o seu retorno é o mínimo que o país precisa fazer.

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

mockup