É recorrente a dúvida de muitos agricultores quanto à possibilidade de dispensar o uso de fertilizantes nitrogenados na adubação da soja, quando esta for inoculada com bactérias fixadoras do nitrogênio (N) do gênero Bradyrhizobium ou, ainda, coinoculadas com Azospirillum. A incerteza maior é quanto à capacidade das bactérias de prover o nutriente em quantidade suficiente para a obtenção de altas produtividades. Alguns ainda são desafiados pela dúvida quanto a dispensar a utilização de pequenas doses de N mineral na semeadura. É verdade que uma pequena dose de fertilizante nitrogenado aplicado na semeadura, juntamente com os demais nutrientes, acelera o desenvolvimento inicial das plantas de soja e as deixa com coloração mais escura, intuindo sobre a possibilidade de produzirem mais grãos; o que não é verdade. A desvantagem inicial das plantas inoculadas versus as adubadas com o nutriente químico é recuperada a partir de 15 dias após a germinação, período durante o qual as bactérias fixadoras de N do inoculante se estabelecem nas raízes das plantas, formam os nódulos onde elas se alojarão e começam a transformar o N2 atmosférico, em NH4+, que é absorvido pela planta.

O inoculante é composto de bactérias vivas. Portanto, precisa de cuidados. Não é igual ao fertilizante químico, que pode ser guardado de um ano para o outro sem perder a validade. O inoculante vence e deve ser adquirido anualmente, mesmo reconhecendo que solos agrícolas há muitos anos cultivados com soja, inoculados repetidas vezes ao longo dos anos, contêm bactérias estabelecidas e funcionais. Reinocular anualmente vale a pena, porque as bactérias de um inoculante novo são mais ativas do que as “sonolentas” bactérias presentes no solo e provenientes de inoculações anteriores. Segundo estudos da Embrapa Soja, a reinoculação anual resulta em aumentos médios de 8% na produtividade da soja, variando desde 0% de aumento, até acréscimos de 25%. Na coinoculação com Azospirillum, os ganhos médios podem ser ainda maiores, chegando a 16% em relação ao não uso de inoculantes.

Quando a inoculação não responde com aumentos de produção, necessário se faz realizar estudos para identificar as causas da ineficiência do inoculante: seria porque o solo daquela lavoura estava bem suprido de N, dada a presença abundante de matéria orgânica ou seria porque o inoculante utilizado estava inativo pela perda da validade resultante do transporte e/ou do armazenamento mal feitos, ou ainda, por terem sido mortos pela incompatibilidade com produtos químicos no tratamento de sementes, ou ainda, práticas inadequadas de semeadura, como o “plantio no pó”, comprometendo a sobrevivência das bactérias fixadoras de N? Existe a seguinte afirmativa na pesquisa com fixação biológica de nitrogênio: “a soja responde à adubação nitrogenada quando algo estiver errado no sistema de produção”.

É notório que a disponibilidade de N mineral inibe a formação de nódulos e a planta passa a utilizar o N do fertilizante. Entretanto, o custo do fertilizante químico nitrogenado é infinitamente maior para o produtor e para o ambiente. O fornecimento de N mineral na semeadura da soja via fertilizante é tolerável desde que não ultrapasse 20 kg/ha, acima do que passa a inibir a nodulação pelas bactérias fixadoras de N. Pequenos aportes de N via fertilizantes formulados só são tolerados se forem fornecidos a custo zero ou próximo disso para a mesma quantidade de P e K fornecida.

Produzir bem é necessário, mas mais importante é ter renda, cujo principal montante pode vir, não da boa produtividade, mas da boa gestão dos fatores de produção. O recurso gasto com uma adubação nitrogenada desnecessária pode ser o lucro que faltará ao final da safra

Amélio Dall’Agnol e Marco Antônio Nogueira, pesquisadores da Embrapa Soja

mockup