Herdeiros do campo
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2019
Amélio Dall'Agnol 
A Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) acaba de distribuir um Boletim Informativo sobre o tema que dá título a este artigo. A preocupação da federação é com o desinteresse dos jovens agricultores em permanecer no campo e suceder os pais, que, com o correr dos anos, ficarão impossibilitados para tocar o negócio agrícola da família.
Com o propósito de apoiar os pequenos agricultores na sucessão familiar da propriedade, a Faep articulou-se com o Senar-PR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Paraná), para ajudar as famílias de pequenos e médios produtores rurais a bem planejar e gerir a sucessão da propriedade da família, por meio do programa Herdeiros do Campo. Este programa oferece treinamentos que começaram pelo Oeste do Estado, onde predominam as pequenas e médias propriedades familiares, as quais enfrentam o fenômeno do êxodo rural.
Apesar do “upgrade” social que o campo teve com o exitoso desenvolvimento do agronegócio no correr das últimas décadas, muitos jovens não se sentem estimulados a permanecer na zona rural e estão preferindo migrar para a cidade, onde imaginam ter melhores oportunidades de ascensão social e mais respeito pelas atividade que irão exercer. O êxodo rural é preocupante, principalmente nos pequenos empreendimentos familiares, onde só restarão os velhos, já sem forças para tocar o negócio da família.
Mas, uma das causas do êxodo rural dos jovens poderia ser atribuída à própria geração que está ficando sozinha no campo, por ter desestimulado o empreendedorismo desses jovens ao negar-lhe a autoridade que eles precisavam para implementar novas iniciativas na propriedade da família. A tendência dos mais adultos, via de regra, é a de menosprezar as ideias “revolucionárias” dos mais jovens, inibindo sua ação e frustrando o seu desejo por mudanças.
Por causa disso, muitos jovens agricultores, percebendo a incapacidade de modernizar o empreendimento da família, veem-se marginalizados no próprio campo e preferem enfrentar a incerteza da vida urbana, a viver sem perspectivas de uma vida melhor na zona rural.
Os jovens, além de mais receptivos à inovação, são mais ousados, pois podem expor-se mais ao risco de um mau negócio, porque, na eventualidade de um insucesso, eles contam com toda uma vida pela frente para recuperar-se. “O futuro não é o que a gente teme, é o que a gente ousa”, dizia Carlos Lacerda, político brasileiro da década de 1950/60.
A iniciativa da Faep é bem-vinda e merece elogios, pois tem o poder de fixar os jovens agricultores no campo, onde poderão usufruir de melhores condições de vida do que na periferia de uma cidade, destino mais provável dos jovens agricultores migrantes.
“Apesar do 'upgrade' social que o campo teve, muitos jovens não se sentem estimulados a permanecer na zona rural”
Amélio Dall’Agnol e André Mateus Prando, pesquisadores da Embrapa Soja


