A saga da soja no Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de dezembro de 2020
Amélio Dall'Agnol 
A soja está sendo considerada o grão do século para o Brasil, dado o crescimento da área cultivada e da produção de grãos, no correr do último meio século. A trajetória tem sido muito superior à de outros grãos. Sua versatilidade de uso na alimentação humana, animal e na produção de biocombustíveis, a torna única, o que constitui o segredo do seu sucesso.
O Brasil acaba de conquistar a liderança mundial na produção desse grão de ouro, sinalizando com a perspectiva de que, desta vez, a conquista será definitiva, considerando que na temporada 2017/18 o país chegou a figurar como líder, mas perdeu a posição na safra seguinte.
O Brasil superou os Estados Unidos, líder histórico na produção da oleaginosa, feito que parece um sonho para os brasileiros que acompanharam o desenvolvimento da cultura pelo País desde os seus primórdios. Em 1960, a produção nacional de soja mal alcançava as 200 mil toneladas, quantidade 115 vezes inferior às 23 milhões de toneladas (Mt) produzidas pelo país norte-americano na época. Pouco mais de meio século depois, o Brasil colheu em 2019/20 uma safra aproximada de 125 Mt ou 625 vezes maior que a safra colhida na safra 1959/1960. Este espetacular crescimento ocorreu com a expansão da área, mas, também, pelo aumento superior a 200% da produtividade média: 1.087 kg/ha da safra 1959/1960 ante cerca de 3.350 kg/ha da safra 2019/2020.
No último concurso para máxima produtividade no Brasil (safra 2019/20), patrocinado pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), o vencedor do certame alcançou um rendimento de 7.129 kg/ha de grãos. Este resultado dá uma noção do potencial produtivo da soja no País quando se integram e potencializam todos os fatores de produção, o que permite ótimas condições de desenvolvimento para a planta. Os concursos de produtividade sinalizam ser possível aumentar significativamente a produção da oleaginosa, sem necessidade de avançar sobre áreas de vegetação nativa. Contudo, enfatiza-se que produzir bem é importante, mas mais importante é ter lucro, o que se consegue com a boa produtividade aliada a uma gestão eficiente da propriedade agrícola.
Existe, também, a expectativa de aumento da área cultivada com soja sem realizar desmatamentos, substituindo os milhões de hectares de pastagens degradadas ainda disponíveis pelo País ou inserindo a cultura em contextos produtivos específicos, como a renovação de canaviais nos estados de São Paulo e Alagoas e a rotação com arroz no Rio Grande do Sul. Diante deste cenário, o MAPA estima aumento de 27% na produção de grãos (soja e milho, principalmente), na próxima década; se o clima ajudar.
A liderança que o Brasil acaba de conquistar na produção de soja, se junta à liderança que já desfrutava nas exportações do grão. Ambas as conquistas parecem ser definitivas, dada a diferença que separa as produções do Brasil e dos EUA: 97 Mt dos americanos em 2019, ante os cerca de 125 Mt colhidos pelo Brasil em 2020. Diferença de 28 Mt (Conab).
A projeção do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) para a safra americana a ser colhida até o final de 2020, aponta para uma produção de 112 Mt, 15 Mt maior que a da temporada anterior, mas 21 Mt menor que a expectativa da safra brasileira 2020/2021, que poderá ultrapassar as 133 Mt. Para alcançar este valor, a projeção aponta para o Brasil o cultivo de 38,3 milhões de hectares e uma produtividade de em torno de 3.472 kg/ha.
Para a safra de soja do Brasil de 2019/2020, chegou-se a especular sobre a possibilidade de uma colheita bem maior, previamente à confirmação da frustração da safra gaúcha, que viu a prolongada estiagem ceifar cerca de 8 Mt da produção esperada. Esta é a maior quebra da cultura registrada em um único estado na história do Brasil. Entretanto, 2020 tem sido o ano que o mercado registrou os maiores preços recebidos por saca de 60 kg, que chegou a superar R$ 170/saca de 60 kg, em alguma praça.
Na safra 2018/2019), também houve quebra de produção, com destaque para os estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Mesmo sem umidade adequada no início da temporada de plantio, muitos produtores arriscaram semear a soja em setembro, logo após o fim do Vazio Sanitário, e foram surpreendidos pela ausência de chuvas até final de outubro. A colheita do PR ficou limitada a 16,3 Mt, ante uma expectativa de 20,0 Mt, enquanto SP e MS colheram, respectivamente, 3,0 Mt e 8,5 Mt, abaixo das respectivas expectativas de 3,5 Mt e 10,0 Mt, de tal forma que a safra brasileira fechou o ciclo com 115 Mt, valor inferior à previsão inicial, que excedia 120 Mt.
A saga da soja continua e tudo indica que seguirá surpreendendo o Brasil com bons resultados por muitos anos ainda. O mundo precisa cada vez mais da soja brasileira.
Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja


