Quem desce apressado a movimentada Avenida São Paulo, na altura do Museu de Arte de Londrina, pode acabar se detendo ante um ''detalhe'' no pátio do museu: uma estátua de homem, feita em concreto armado, espia a rua do alto de seus aproximados 1,80m de altura. Fica a dúvida imediata: quem é aquele? O que faz ali?
É Zumbi dos Palmares, o famoso líder escravo alagoano, homenageado na obra do artista plástico Eduardo Tadeu. Criador e criatura aguardam, desde novembro do ano passado, o desfecho da briga entre comunidade negra e poder público para decidir que praça deve abrigar a estátua.
Agora, um novo capítulo da novela se anuncia. Cansado de assistir de camarote às discussões, o autor da obra afirma que não vai mais entregá-la. ''Como minha obra não parece boa nem para o município, nem para o movimento negro, eu vou ficar com ela. Estão insultando meu trabalho e até a memória de Zumbi'', indigna-se.
Tadeu conta que em setembro de 2002 foi escolhido pelo Conselho Municipal dos Direitos do Negro para fazer a obra em homenagem ao líder do Quilombo de Palmares. A estátua seria entregue em 20 de novembro, dia da Consciência Negra, mas foi então que o impasse em torno do local destinado à obra começou.
A Secretaria de Cultura sugeriu a Praça do Aleijadinho, na Vila Ipiranga, bairro central onde as ruas ostentam nomes de alguns dos algozes de Zumbi, como o bandeirante Domingos Jorge Velho. O conselho recusou, reivindicando um local perto dali, porém mais destacado, a rotatória em frente ao Moringão. Não foi atendido.
A trama ficou ainda mais complicada quando a nova presidente do Conselho dos Direitos do Negro, Vilma Santos de Oliveira, declarou que preferia que Zumbi fosse homenageado com um busto de bronze, de conotação política, a exemplo de outras obras do gênero existentes na cidade (ver texto nesta página). Apesar de sustentar essa opinião, Vilma afirma que o trabalho já feito tem de ser respeitado. ''Não podemos ignorar a obra, precisamos colocá-la em algum lugar. Isso será discutido em reunião do conselho'', destaca.
Eduardo Tadeu defende seu trabalho e diz que um herói negro merece uma obra diferenciada. No momento, entretanto, o que importa para ele é que a estátua tenha um destino. ''As pessoas podem achar maravilhoso ou horrível, mas para acharem alguma coisa a obra tem que ser levada a público'', conclui.
Em 2004, quando serão comemorados os 70 anos de Londrina, a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), junto com a Secretaria de Cultura, pretende implementar um projeto que transformará 10 áreas públicas da cidade em praças temáticas. Os monumentos que serão colocados nos locais ainda não foram definidos. E Zumbi? ''Podem ficar tranquilos que ainda vamos achar um lugar para a estátua'', assegura o secretário de Cultura, Bernardo Pellegrini.

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