Curitiba - O número de notificações de atos de violência contra crianças e adolescentes só tem aumentado a cada ano. No entanto, isso não significa, necessariamente, que as ocorrências cresçam na mesma proporção. Por um lado, existe cada vez mais capacitação para que os profissionais aprendam a identificar os sinais de violência e reportar as situações às autoridados. Do outro, as próprias famílias têm conseguido romper o pacto de silêncio por saber onde procurar ajuda. Contudo, isso não significa que seja o momento de comemorar.
O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração de Crianças e Adolescentes marca os 36 anos da morte de Araci Cabrera Crespo, uma menina de 8 anos que foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada, em Vitória, no Espírito Santo. Os acusados, jovens de classe média alta, nunca foram punidos.
Em Curitiba, 4.447 casos de violência contra crianças e adolescentes foram notificados no ano passado. Do total, 13% são de abuso sexual. Os números são do Banco de Dados do Centro de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde.
Segundo a assistente social da Fundação da Ação Social (FAS), de Curitiba, e membro da Comissão Estadual Interinstitucional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, Marisa Mendes de Souza, a exploração sexual acaba tendo poucos registros por ser quase sempre velada.
A maior parte dos registros é de abuso ou violência consumados no ato. A faixa etária entre 5 e 14 anos é a mais atingida, 58%. Com relação ao agressor, dos 691 casos notificados, apenas 108 eram desconhecidos ou ignorados. Noventa eram conhecidos - 61, o padastro; 35, o tio. Abusos cometidos por primos, vizinhos e outros parentes ou amigos próximos completam as estatísticas.
''Os dados contrariam aquela máxima dos pais de 'tenha cuidado com estranhos'. O esforço tem que ser de orientar bem as crianças e perceber quando ela pede ajuda. Ela se sente ambivalente e em dúvida, porque, na maioria dos casos, é uma pessoa que ela gosta e confia'', avalia Marisa.
Uma pesquisa estadual divulgada no final do ano passado mostra que 92,11% das violações se concentram na zona urbana. Os dados foram coletados em 2006, nos 399 municípios do Paraná, atingindo 85% da população. A linha de atuação da pesquisa foi a de diagnosticar casos imediatos sobre os vários tipos de violações e identificar os agentes violadores dos direitos fundamentais. Segundo a pesquisa, naquele ano foram registrados 55.646 violações no Paraná.
De acordo com Marisa, todos os casos notificados são acompanhados e monitorados por uma equipe da rede de proteção. ''Muitas vezes, a família só precisa de uma ajuda para se reestruturar e evitar aquela situação'', diz. Em alguns casos, pode-se chegar ao extremo de retirar a criança da família.
Para relatar uma violação dos direitos de crianças ou adolescentes foi criado um disque denúncia nacional. A ligação é gratuita e pode ser anônima para o 0800 99 0500. Em Curitiba, o telefone 156, da prefeitura, também atende a denúncias e pedidos para atendimento com profissionais específicos que vão até o local avaliar a situação.

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