Zilda Arns é homenageada em Londrina
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sexta-feira, 19 de novembro de 2004
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
A tragédia de 127 mortes de crianças com menos de seis anos de idade por mil habitantes ainda não tinha sido contida e o testemunho de alguém que acompanhou de perto os primeiros anos da Pastoral da Criança no Brasil, em Florestópolis (73 km ao Norte de Londrina), município escolhido para o projeto piloto do trabalho voluntário, já desenhava com palavras, a força da solidariedade: ''Não foi a cidade que melhorou, fomos nós''.
A reverberação desse testemunho atravessou o continente em direção aos países africanos como Guiné-Bissal, país de maioria muçulmana em que apenas 10% da população são cristãos, Angola e Moçambique. Na Ásia, a pastoral está presente em Timor Leste e Filipinas.
A afirmação resgata de 21 anos atrás uma personagem anônima, da época em que a médica sanitarista Zilda Arns fundou a Pastoral da Criança, em Florestópolis. Uma figura que pode muito bem representar os 138.832 líderes comunitários, que atendem 38.886 comunidades pobres brasileiras.
Somente no segundo trimestre de 2004, a pastoral atendeu mais de 1,8 milhão de crianças abaixo dos seis anos de idade. Um trabalho de formiguinha, que multiplica a solidariedade e que, há três anos, levou Zilda Arns à Organização das Nações Unidas (ONU) oportunidade em que 186 países reconheceram que para promover a paz é preciso investir na criança e juventude.
Recentemente indicada para ser a coordenadora da Pastoral do Idoso, Zilda Arns esteve ontem em Londrina para receber o título de doutora honoris causa, concedido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC).
Na diocese londrinense 12.260 crianças menores de seis anos são atendidas pela pastoral, sendo que 45% são consideradas pobres. A cidade é mais um município no atlas da pastoral e que pelo caminho deixa lições de saúde, nutrição, educação e cidadania.
''Atualmente, me assusta mais os grandes bolsões de miséria em áreas metropolitanas pela violência'', destaca Zilda Arns, afirmando que onde mina a pobreza a violência não encontra um curso fácil. Ao contrário das áreas com grande concentração de riqueza.
A pregação da fundadora da Pastoral da Criança em cima dos altos índices de violência envolvendo menores é a mesma que nutriu a criação da pastoral há duas décadas.
''Sai mais barato para o governo fazer com que as escolas funcionem o dia inteiro, incluindo aulas de música, arte, esporte, educação e trabalho, do que correr atrás de meninos de rua, menores infratores e traficantes. Gostaria que todos os prefeitos recém-eleitos ou reeleitos pensassem nesse assunto com mais seriedade.'' A afirmação é respaldada pelo custo de R$ 1,35 por cada criança atendida pela pastoral.
Acompanhando as iniciativas em defesa das crianças e adolescentes pelo país, Zilda Arns destaca o trabalho desenvolvido pelo Criança Esperança, no Rio de Janeiro, amparando jovens de dois morros cariocas, reduzindo a criminalidade, através da artes.
Em 2003 a Campanha da Fraternidade foi o start para a aprovação do Estatuto do Idoso pelo congresso. Apontada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para assumir a coordenação da Pastoral do Idoso, Zilda Arns lembra que a Pastoral da Criança já atendia 34 mil idosos, tendo fornecido nove indicadores que pautarão o trabalho com os que chegaram à terceira idade.
''Já fizemos uma pesquisa, onde cada diocese respondeu se já tem a Pastoral do Idoso, o que gostaria que fizesse e o que espera da pastoral'', acrescenta Zilda Arns.
O engatinhar da nova pastoral é estimulado pelos passos seguros da Pastoral da Criança, que fez de pessoas simples muitas com pouco grau de instrução chegarem aos 21 anos desse voluntariado com testemunhos que ainda emocionam a sanitarista. ''Líderes comunitárias que me dizem: 'antes eu não era gente. Hoje sou doutora'', conclui Zilda Arns.


