Zilda Arns deixa a Pastoral da Criança
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sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Depois de quase 25 anos à frente dos trabalhos da Pastoral da Criança, a médica e sanitarista Zilda Arns, anunciou, ontem de manhã, que está deixando a coordenação nacional da organização. No lugar de Zilda, que chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz, em 2006, em reconhecimento aos resultados obtidos, assume Vera Lúcia Altoé, pedagoga e integrante da Congregação das Irmãs Imaculada Conceição, que há dez anos atua na Pastoral.
O nome da irmã Vera foi indicado pelo novo presidente do Conselho Diretor da Pastoral da Criança, dom Aldo Di Cillo Pagotto, arcebispo da Paraíba, eleito para o cargo durante a 13 Assembléia Geral da instituição. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ainda precisa ratificar os nomes do presidente do conselho diretor e da nova coordenadora nacional, o que acontece em fevereiro de 2008.
Zilda Arns fez questão de frisar que sua saída do comando da Pastoral não é consequência do Decreto 6.170/2007, editado em julho pelo governo federal, com objetivo de evitar fraudes e influências políticas na destinação de recursos oficiais para entidades. O decreto, que dispõe sobre as normas para transferências de recursos da União em casos de convênios e repasses proíbe, em seu capítulo 2, o repasse de recursos para entidades que tenham como dirigentes membros dos três Poderes ou do Ministério Público, bem como seus parentes. Como Zilda é tia do senador Flávio Arns (PT-PR), ela teria que deixar a função, ou a Pastoral não receberia mais dinheiro do governo.
A saída dela da coordenação nacional foi decidida em 2005, quando foram aprovadas mudanças no Estatuto da Pastoral. Entre as alterações, foi definido que nenhuma pessoa poderá permanecer mais do que oito anos seguidos em cargos de instâncias nacionais. Mesmo assim, a médica não poupou o decreto de críticas. Tanto que ela já agendou para 5 de dezembro uma reunião com o ministro do Planejamento Paulo Bernardo para tratar do assunto.
''Se querem acabar com a corrupção nas entidades, não vai ser com o uso de um decreto. Quem é corrupto não precisa se valer de um parente, ele vai usar outros meios'', afirmou. Sua maior crítica, no entanto, é com relação ao artigo 10, que obriga as entidades a efetuarem pagamentos exclusivamente mediante crédito em conta bancária. ''O decreto foi feito por quem nunca pôs o pé na estrada, é desligado da realidade brasileira; castiga justamente as entidades que chegam aos lugares mais pobres, como a Pastoral'', disse.
Segundo ela, a entidade pode trabalhar com cheques em instâncias superiores até enviar recursos para as 310 dioceses do País. ''Daí para frente, fica difícil. Nos municípios, os líderes comunitários têm que pagar ônibus, ir na feira, eles pegam recibos e notas fiscais, mas não têm como fazer tudo com cheque. É impossível administrar a pobreza através de contas bancárias'', afirmou.
Apesar de sair da coordenação nacional, Zildaa Arns vai continuar a acompanhar a Pastoral, em especial na luta pela implantação de políticas públicas dirigidas à saúde pública e educação. Em uma avaliação sobre os 25 anos frente à Pastoral, apontou o alcance atual da entidade, que acompanha mensalmente mais de 43 mil comunidades de 4 mil municípios brasileiros, trabalho feito com a ajuda de 270 mil voluntários.
''Hoje atendemos 20% das crianças pobres do País. Queria conseguir chegar a 100% porque é grande o benefício para essas comunidades, com redução da mortalidade infantil, desenvolvimento integral das crianças'', disse, ressaltando que as ações devem ser feitas no sentido de melhorar o acesso e a qualidade dos serviços de saúde, na ampliação da educação em tempo integral ''com arte, esporte e educação para o trabalho, o que vai diminuir a violência, principalmente a produzida pelos jovens, que devem ter esperança no futuro'', afirmou.


