Zezé, brotinho dos anos 60
Celso PachecoTúnel do tempoMaria José Cortes folheia o álbum e recorda o período de romantismoJosiane Schulz
Ser top-model internacional: esse é o sonho da maioria das adolescentes da década de 90. Nos desfiles em passarelas de grifes famosas ou nas campanhas publicitárias, a meta é conquistar a fama. Nesse mundo de moda e beleza, um dos eventos mais tradicionais acabou ficando em segundo plano. Trata-se dos concursos de miss, que hoje ocupam espaço pouco expressivo, mas que já foram há alguns anos sinônimo de glamour.
Era o grande evento do ano, aguardado com muita ansiedade, conta a dona de casa, Maria José Cortes Xavier, 49 anos. Zezé, como era conhecida, foi eleita Miss Londrina em 1967, quando tinha 18 anos. Ao mostrar jornais da época, ela prova o que diz. O concurso foi, por diversos dias, capa da Folha de Londrina e manchete da Gazeta do Patrocínio, de Minas Gerais, órgão de imprensa da cidade natal de Zezé.
Maria José lembra que para as moças dos anos 60 e 70 ser miss era um grande sonho. Mas era uma época de romantismo, diz. Assistíamos ao filme Sissi, a Imperatriz, e sonhávamos com nosso príncipe. Para ela, a diferença, hoje, é que tudo está ligado à compensação financeira.
Para concorrer a Miss Londrina, Zezé foi convidada pela gerência do Nossobanco (mais tarde comprado pelo Banespa), onde trabalhava. Foi uma surpresa. Participar do evento nem se passava pela minha cabeça. Ela conta que o pai, José Cortes, foi contra. Ele não admitia que eu desfilasse de maiô. Era o pensamento da época, diz, contando que até nos bailes ela tinha que ir acompanhada dos pais. O apoio veio da mãe, Odete, e das irmãs. Chegou a ter briga em casa, lembra.
Mas no dia do desfile, em maio de 67, estavam todos no Grêmio Recreativo Londrinense. No momento da divulgação do resultado, a euforia tomou conta. Meu pai ficou muito feliz. Zezé foi eleita Miss Londrina e também Miss Simpatia. A faixa foi entregue por Elizabeth Doroti Fiori, a vencedora do concurso do ano anterior. Ela lembra que havia um clima de amizade entre as concorrentes. Não existia inveja e nada postiço. A beleza tinha que ser natural - era regra do concurso. Um fato que marcou o desfile daquele ano foi a homenagem da Miss Cambé, Lucinéia Grizzo, às concorrentes de Londrina. Ela entregou uma rosa a cada uma de nós.
Arquivo pessoalGlamourZezé, durante desfile em Cornélio Procópio, no carro da épocaUm baile sempre marcava o fim do desfile. Todos os jovens da cidade participavam. Era uma grande festa. Em 1967, o evento foi promovido pelo Centro Acadêmico Sete de Março, da Faculdade de Direito de Londrina. Os prêmios: uma jóia, roupas da boutique Rua Augusta e duas viagens. Na época, a Miss Londrina era tratada mesmo como autoridade. Festas, inaugurações, eventos e outros concursos, tinham obrigatoriamente a presença de Maria José.
Ela conta que uma das viagens que ganhou foi um tour pelo Rio Grande do Sul. Em Bento Gonçalves, ela foi convidada para participar da inauguração da fábrica da Cerveja Pérola. Foi uma viagem ótima. Junto comigo estava a rainha da Exposição de Londrina, Vera Maria Bertoluzzi e o fotógrafo Daniel Martinon. Os hotéis eram maravilhosos. Recebíamos flores e bombons constantemente. A outra viagem foi para Brasília. Fui de avião. Na época, era algo fantástico. Tudo isso foi registrado pela imprensa e documentado em arquivo por Maria José.
Depois, veio o Miss Paraná. Pela primeira vez fora da capital, o concurso foi realizado em Cornélio Procópio. Eram 33 concorrentes. Antes do concurso, a representante da cada cidade passeou pelas ruas de Cornélio em Fuscas. Era o carro da época. O passeio era acompanhado por um público representativo. Antes do desfile, no Clube, as 15 finalistas receberam treinamento. Um dos requisitos do concurso era a oratória. Não respondíamos a perguntas, como é agora, mas saudávamos o público. Essa era a parte mais difícil, completa.
Outro detalhe interessante, é que durante o concurso, cada candidata ficou hospedada na casa de famílias procopenses. No concurso de Miss Paraná, Maria José conquistou o 5º lugar. Tudo isso representava muito. Era nova em Londrina, tinha chegado fazia poucos dias de Jaguapitã. O sentimento que predominava, para Zezé era fascinação. Foi um ano de sonho, um dos melhores da minha vida. Ela conta que as moças da época eram muito retraídas. Não tínhamos um espírito despojado, empreendedor. Tanto, que ela recusou o convite do jornalista Dino Almeida para participar do concurso Glamour Girl. Seria uma grande chance. No ano seguinte, Maria José passou o título de Miss Londrina para Eloisa Helena Ribeiro. Depois disso, a vida voltou ao normal.
Para ela, tudo isso abriu portas. Não segui carreira, porque na época não tinha isso, diz. Mas no emprego o título teve peso. Maria José foi promovida. Ela permaneceu no banco até 1970, quando casou com Flávio Xavier. Maria José teve três filhos: Rodrigo, hoje com 26 anos, Flávia, 23, e Angélica, 22. Hoje, com 49 anos, Maria José ainda busca preservar a beleza e a forma física. O segredo são caminhadas e muito esporte, como vôlei. Estou sempre de bem comigo mesma. Hoje ela se considera apresentável. O tempo passa e não podemos esconder isso, né?.
O concurso marcou a vida de Zezé. A filha Flávia seguiu os passos da mãe. Em 1996, ela foi eleita Rainha do Rodeio Universitário de Londrina. Flávia venceu também o concurso nacional. Para quem está iniciando agora, ela dá um conselho: seguir em frente e ir em busca do sonho. Dos tempos áureos dos concursos de miss, ficaram para Maria José amizades, muita satisfação e saudade. Mas é passado. Hoje sou feliz, muito bem casada, com os filhos encaminhados. Meu sonho é vê-los casados e esperar a vinda dos meus netos, diz.





