Zezão, a voz que não sai do ar há 35 anos
Depois do Golpe Militar, a década de 60 ganhou o apelido de anos de chumbo pela brutalidade da repressão que se instalou no País. A violência praticada pelo governo contra presos políticos e a censura aos meios de comunicação constratavam, sobretudo, com a alta religiosidade da população, que permanecia intacta. No maior país católico do mundo, a Hora da Ave Maria, transmitida diariamente, exatamente às 18 horas, em todo o território nacional, era considerado um momento solene na vida de muitos brasileiros.
Foi neste cenário que o jovem operador técnico da Rádio Paiquerê, em Londrina, entrou no prédio da emissora com uma missão quase sagrada: colocar o fundo musical para que o padre proferisse a famosa oração do dia. Não era um trabalho estranho - ele já tinha realizado outras tantas vezes -, mas o padre era diferente. Sem problemas: quando chegou o horário, o técnico regulou o volume do som e deu sinal para que o padre começasse a oração.
O fundo musical, no entanto, ficou alto demais, e mal dava para ouvir a prece. O padre, nervoso, logo percebeu o problema e acenava do estúdio para que o técnico abaixasse o som. Confuso, e vendo os gestos estabanados do padre, o técnico resolveu atender a solicitação do jeito que ele entendeu: caiu de joelhos no chão, abaixou a cabeça, e começou a rezar. Naquela tarde, em Londrina, ninguém conseguiu ouvir direito a oração da Hora da Ave Maria.
Arquivo pessoalEcléticoJosé Makiolke, no início da carreira.
Na trajetória dele, programas musicais, televisivos, comerciais ao vivo e ponta na novela Jerônimo, o herói do sertão, da extinta Rede TupiDepois do programa, achei que ele (o padre) queria me queimar com água benta, recorda com humor o radialista londrinense José Makiolke, na época o atrapalhado técnico de som da Rádio Paiquerê. Mas o incidente, ainda no começo da vida profissional, não o intimidou: mais de três décadas depois, Zezão - como é mais conhecido na cidade - está comemorando 35 anos de uma carreira no rádio. O rádio foi minha escola, minha faculdade. Parei de estudar, parei com tudo por causa dele. Mas hoje percebo que valeu a pena, avalia o radialista, de 51 anos de idade.
Makiolke entrou para a vida artística com apenas 12 anos, fazendo teatro amador. Três anos depois, fez teste e já começou a apresentar radionovela na Rádio Difusora, de Londrina. Fiquei encantado com o veículo e ensaiava o dia todo, recorda. A voz versátil, embora de garoto, ajudou muito na hora da composição dos personagens. Com ela, fez de tudo um pouco: desde Preto Velho, moleque, senhor com sotaque alemão, francês e muitos outros.
Além de fazer radionovela, Makiolke exerceu outras funções nas emissoras em que trabalhou, como noticiarista e técnico de som. Aos poucos, também, passou a produzir e apresentar programas musicais: Músicas da Juventude - por onde figuravam nomes como Elvis Presley, Beatles e Roberto Carlos, entre outros - e Colar de Tangos, todo sábado à noite, com o melhor do tango argentino, foram alguns exemplos.
A carreira de radialista em Londrina sofreu o primeiro corte quando ele completou 18 anos e teve que servir o Exército em Curitiba. Mesmo lá, no entanto, não ficou longe do veículo: acabou trabalhando na Rádio Emissora Paranaense e Rádio Tingui (que não existe mais). Depois, voltou para a cidade natal.
Quase na mesma época em que Makiolke começou no rádio, a televisão também chegava a Londrina. A TV Coroados foi a primeira emissora de tevê do interior do País e Zezão, um dos pioneiros. Lá, ele fez teleteatro, apresentou programas de auditório, comerciais e programas jornalísticos. Também ficou fascinado com a possibilidade de fazer teleteatro na Rede Globo, no Rio de Janeiro, apontada como a Meca dos artistas. Não deu outra: quando completou 24 anos, Zezão se mudou para a capital carioca.
Enquanto tentava a carreira na tevê do Rio, Makiolke trabalhou nas rádios mais importantes do País na época, como a Tupi e a Tamoio. Foi uma experiência muito grande, onde aprendi muito, afirma. Na televisão, chegou a fazer uma ponta na novela Jerônimo, Herói do Sertão, sucesso da Tupi. Um ano depois, no entanto, percebeu que para ganhar espaço na maior tevê do Brasil precisaria de algo além do que o talento: a influência. Desistiu e voltou para Londrina.
Mas voltei com uma auto-estima muito grande. Tinha trabalhado nas mais importantes emissoras de rádio do País e por isso ganhei muita segurança, diz. De volta definitivamente a Londrina, virou diretor artístico da Rádio Paiquerê e começou a produzir aquele que seria seu maior sucesso no rádio: o Programa do Zezão, há quase 20 anos no ar. Também fez shows, voltou à tevê e teve até participação na vida política da cidade como vereador. Em 1992 foi eleito como o mais votado da cidade.
De lá para cá mudou muita coisa. Só não mudou a cumplicidade com as coisas do dia-a-dia. Não é possível, por exemplo, adotar uma postura professoral no ar. Tem que ser honesto: se estou rouco, faço o programa rouco; se estou com sono, falo que estou com sono, ensina o radialista.
Por isso, Zezão guarda na ponta da língua uma frase que aprendeu no livro O Pequeno Príncipe, do escritor francês Saint-Exupéry: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Ele comenta: Pode parecer piegas, mas é a verdade. Não dá para ficar tanto tempo fazendo sucesso se não for minimamente honesto com o ouvinte.Mario CesarAutenticidadeJosé Makiolke, 51 anos: Não dá para ficar tanto tempo no ar se não for honesto com o ouvinteLúcio Horta





