Lucilia Okamura
De Londrina
A zeladora Cleusa Mota dos Santos, 44 anos, procurou ontem o Centro de Direitos Humanos (CDH) de Londrina para pedir apoio. Ela quer que o centro intervenha para agilizar o inquérito policial que apura um possível caso de racismo que sofreu em 96. Na justiça, ela já ganhou ação cível de indenização por danos morais, mas quer que o acusado, o professor Edno Mariano dos Santos, também pague criminalmente pelo delito.
Cleusa trabalhou como auxiliar de serviços gerais no Colégio Estadual Adélia Dionísia Barbosa, na zona norte. Ela disse que foi discriminada e humilhada por Santos, que é diretor da instituição. ‘‘Nega fedida’’ e ‘‘vagabunda’’ são algumas expressões que o diretor teria usado contra ela.
Em maio de 98, a pedido do Ministério Público, foi instaurado inquérito policial no 5º distrito para apurar o caso. Segundo Cleusa, o inquérito não foi concluído ainda. A advogada Regiane de Oliveira Andreola, da comissão de Justiça e Segurança do CDH, foi até o Fórum ontem à tarde para saber sobre o inquérito. Segundo ela, o caso está na 3ª Vara Criminal. ‘‘O pessoal do cartório não conseguiu encontrar o inquérito, mas vou entrar em contato amanhã (hoje) para ver se foi achado’’.
A zeladora contou a Regiane e a Jorge Custódio, também do CDH, o que teria ocorrido quando trabalhava no colégio. Ela se emocionou ao lembrar de alguns episódios. ‘‘O que mais me dói por dentro é saber que ele (Santos) continua na escola, exercendo o cargo dele e eu estou desempregada’’, disse. Cleusa foi demitida do colégio em novembro de 96 pelo Conselho Escolar, sob a alegação dela ser insuficiente. ‘‘Sempre fui honesta e meu trabalho sempre foi elogiado’’, ressaltou.
‘‘Pelo que ela está contando, ela foi mais humilhada que eu’’, afirmou o operário Antonio Carlos de Oliveira, que também teria sido vítima de racismo no início da semana, e compareceu ontem à tarde na sede do CDH. Ele acredita que a sua atitude e a de Cleusa, de denunciar os fatos, dá força às outras pessoas. ‘‘Se elas passarem pela mesma situação que eu passei, devem denunciar, não podem ficar quietas’’, orientou.
Além de acompanhar e dar apoio a Cleusa, o CDH irá também informar a Associação Cultural de Negritude e Ação Popular (Acnap), de Curitiba, sobre o caso. A entidade já vem acompanhando o caso do operário. Custódio explicou que pretende ainda entrar em contato com o governo do Estado. ‘‘O fato dele ser diretor de uma escola estadual é preocupante’’, afirmou.
Segundo cópias de algumas páginas do inquérito que Cleusa levou para o CDH, Santos foi submetido a uma verificação interna, respondeu a uma sindicância junto ao Núcleo Regional de Educação, mas foi absolvido.
Cleusa ganhou, em primeira instância, ação de indenização por danos morais. O acusado foi condenado a pagar R$ 7 mil para a zeladora. Mas o advogado de Santos, Marcelo Leal, já recorreu da decisão junto ao Tribunal de Justiça do Paraná. Em entrevista à Folha, anteontem, Leal disse que seu cliente jamais teve qualquer atitude racista.Vítima de danos morais recorre ao CDH para tentar agilizar inquérito policial
Mario CesarDIREITOSA zeladora Cleusa dos Santos, que ganhou indenização por danos morais; e o operário Antonio Carlos de Oliveira, que acusa mulher de ex-patrão de agressão racial

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