Zé Tubaína não tem uma casa. Mora com sete irmãos em um barraco de um bairro da zona sul de Londrina, onde as habitações precárias não são novidades. Ele até gosta da cidade. Gosta de ir ao Lago Igapó - hoje vazio e com mau cheiro -, passear no Zerão, frequentar o Parque Arthur Thomas.
Dia desses viu que iam inaugurar uma casa bonita, com hospedagem para 320 visitantes. Era a tal da Casa de Custódia. Seu irmão jurou que era tudo muito luxuoso, com várias cores nos quartos. E o melhor: tudo pago pelo Estado.
Zé Tubaína chegou para sua família e disse: ''Estou partindo. Vou morar de graça em um prédio luxuoso!'' Seguiu pela estrada que dava acesso a esse lugar, onde se avistava de longe um castelo multicolorido. Mas, chegando, um policial o parou, com um aviso: entrada proibida. ''Só pode entrar se já cometeu um crime''.
Zé Tubaína pensou, matutou e logo veio na lembrança: já fazia um tempo, mas ele, certa vez, roubou a pipa de seu amigo com um cortante. O policial sorriu e informou: ''Tem de fazer algo mais pesado.'' Zé tentou achar na memória. ''Ah. Uma vez eu disse para o padre que eu gostava de minha cunhada. Mas tinha vergonha de falar''. O policial olhou para baixo e retrucou: ''Isso é normal. Tem de fazer coisa diferente''.
Não conseguindo lembrar de nada mais grave, Zé foi para o barraco e se conformou. Ligou a TV e lá estava a casa colorida, equipamentos modernos e tudo de graça. Uma cena então chamou a atenção. Políticos passeavam pelo interior do prédio, com um grande sorriso no rosto. Estavam ali para inaugurar tudo aquilo.
Zé começou a raciocinar e concluiu: ''É injusto, vou ter de fazer um roubo muito grande para tentar entrar lá''. Teve a idéia de agredir aqueles homens bem vestidos, que representavam o Estado: ''Se eu atacar o Estado no ponto certo, o Estado vai me querer perto dele. Daí eu tô na Casa''.
Na data e na hora certa, Zé vestiu uma roupa simples e bonita. Juntou umas moedas no bolso e pegou o terço na cabeceira. Já no local, percebeu homens armados impedindo qualquer manifestação.
Mas como havia decidido, ajeitou a camisa e caminhou em direção aos homens armados. Prosseguiu até ser contido pelos braços fortes do esquema de segurança. Zé ficou triste até que viu uma moça gritando. Era uma estudante: ''A gente pagou a cadeia e não pode ver a inauguração!''. Zé percebeu que na verdade a Casa era dele. Não tinha que permitir permissão para entrar não. Ele tinha pago por meio de impostos.
Tentou romper a barreira, mas não conseguiu. Nem passar pelos seguranças e tampouco ser levado para a Casa de Custódia. Mas foi, em pouco tempo, contratado pelo Estado, com função em um órgão público. Tornou-se um dos mais exemplares funcionários públicos.

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