Zé, João, Mané ou tio? Ele carrega o país nas costas
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sexta-feira, 07 de dezembro de 2001
Walter Ogama 
O sol queima a pele já enrru gada do velho senhor que atra vessa, às quatro da tarde, ruas movimentadas de Londrina à frente de um pe sado carrinho construído de pedaços de madeira. Ele é a tração de seu veículo, carregado de papéis. Diz percorrer, diariamente, cerca de 10 quilômetros. Trajeto que cumpre de acordo com um relógio que não é digital e nem analógico. Talvez, biológico. Será que começa a puxar o carrinho quando o cansaço se esconde?
Passa de porta em porta, por dezenas de estabelecimentos comerciais, de onde recolhe caixotes de papelão e outras embalagens descartadas. O sapato que um consumidor comprou e já saiu com a aquisição nos pés, por exemplo, rende para ele mais uma caixa, com peso razoável, a ser acrescentada na balança do comprador de papéis.
Nem um nome definido tem. Alguns o chamam de João. Outros se dirigem a ele como Mané. O Zé é o mais comum dos tratamentos que recebe. Ele não se importa com isso. Também o chamam de tio e ele até fica contente, principalmente quando esse tratamento, mesmo com certa frieza, parte de algumas moças bonitas que trabalham nas lojas por onde passa.
Parece não ter muitas pretensões. Mas deve ter sonhos e pelo menos um deles está escancarado na placa de um carro que pregou no seu carrinho. Talvez gostaria que o seu veículo fosse de tração mecânica, em vez de ser o fardo pesado de seu cotidiano na cata de papéis, que são transformados em dinheiro, e que rendem um mínimo necessário para o pão de cada dia.
Zé, João, Mané ou tio, cidadão anônimo, nem está tão triste neste dezembro, quando as músicas natalinas que escapam das lojas costumam deprimir algumas pessoas. Apesar da crise que deixa infeliz uma porção de trabalhadores e comerciantes, as compras movimentam o comércio, que descarta mais embalagens, que enchem o carrinho do catador de papel e somam um dinheirinho a mais para ele e sua família.
E a vida continua, na luta do catador de roupas surradas, que nem liga para o trânsito movimentado e os atrapalhos que seu veículo causa aos motorizados. Entre buzinas e provocações, ele vai perpetuando sua rotina, que começa exatamente às quatro e termina no final da noite, quando as lojas fecham suas portas e encerram a rotina de tantos outros trabalhadores que levam este país nas costas.


